Oscar Bessi

A I.A., os golpes e Brad Pitt

Há ainda um ponto que passa batido no carnaval de memes: o respeito à imagem. A mulher do aeroporto virou personagem pública sem pedir ingresso para esse espetáculo. Foi julgada, ridicularizada e reduzida a piada. O próprio Brad Pitt — ou melhor, sua imagem — também foi sequestrado para um jogo de falsas aparições, agora “encontrado” em praças, praias e supermercados do Rio Grande do Sul, sempre com ajuda da IA e de uma legenda espirituosa. Divertido? Talvez. Inofensivo? Nem sempre.

Na virada do ano, enquanto uns esperavam o ônibus atrasado, outros aguardavam o brinde da meia-noite e alguns torciam por um 2026 menos quente, mais sossegado ou menos doloroso que 2025, uma mulher esperava por Brad Pitt em um aeroporto por aí. Não era metáfora, nem delírio poético: era esperança concreta e coração acelerado. A cena, abordada pela polícia, ganhou o mundo pelas redes sociais, onde o riso foi mais rápido que a reflexão. Afinal, rir é mais leve do que admitir que, em tempos digitais, qualquer um pode ser convencido de que um astro de Hollywood vai desembarcar em um portão três bem pertinho de você.

O episódio tem algo de cômico, é verdade. Parece roteiro de comédia romântica mal-ajambrada, dessas em que o final não tem beijo nem trilha sonora, apenas um boletim de ocorrência e milhares de comentários cruéis. Mas o riso fácil esconde um alerta sério: os golpes virtuais evoluíram, aprenderam a falar bonito, a usar fotos perfeitas, vídeos falsos e, agora, a inteligência artificial como cúmplice. Não se trata mais do velho “príncipe nigeriano”, mas de celebridades recriadas digitalmente, com voz, rosto e promessas sob medida.

A IA, que poderia ajudar apenas a diagnosticar doenças, prever enchentes ou melhorar a educação, também virou ferramenta para enganar, manipular e explorar fragilidades humanas. Solidão, carência, desejo de pertencimento e até admiração por ídolos são transformados em moeda. E qualquer um pode ser vítima: jovens, idosos, pessoas instruídas ou não. O golpe não escolhe perfil; escolhe emoção.

Há ainda um ponto que passa batido no carnaval de memes: o respeito à imagem. A mulher do aeroporto virou personagem pública sem pedir ingresso para esse espetáculo. Foi julgada, ridicularizada e reduzida a piada. O próprio Brad Pitt — ou melhor, sua imagem — também foi sequestrado para um jogo de falsas aparições, agora “encontrado” em praças, praias e supermercados do Rio Grande do Sul, sempre com ajuda da IA e de uma legenda espirituosa. Divertido? Talvez. Inofensivo? Nem sempre.

Rir continua sendo permitido, até necessário. Mas talvez seja hora de rir com um olho no espelho e outro no alerta. A tecnologia avança mais rápido que o nosso senso crítico, e a linha entre humor, golpe e exposição indevida é cada vez mais fina. Antes de compartilhar, zombar ou acreditar, vale lembrar: hoje é Brad Pitt no aeroporto, amanhã pode ser alguém que conhecemos — ou nós mesmos — esperando por algo que nunca vai aterrissar. Mas pode gerar quedas irrecuperáveis.

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