Oscar Bessi

A inócua coleira dos homens

O custo das tornozeleiras é alto. Quem paga? O cidadão. Cidadão contribuinte, claro, não o que opta por cometer crimes. Lucros criminosos são sempre livres de impostos. Já vimos este filme, dirão os leitores. Sim. Vemos todos os dias. A estratégia é apostar nos efeitos especiais, caros e impactantes. Nada de arriscar nalguma qualidade ao roteiro.
Os policiais relatam falhas nas informações. Como as tornozeleiras com defeito, exigindo mobilização da polícia e locomoção de agentes penitenciários em vão. Recursos públicos pelo ralo em falha anunciada, dizem. Torneira que se deixa aberta com desdém em tempo de seca. Os defensores do equipamento rebatem com números generosos sobre a redução da reincidência criminal de quem usa a tornozeleira. A pergunta que fica: o acompanhamento, que fornece esses dados, é eficiente? Sabe-se com certeza o que os beneficiados fazem com suas tornozeleiras o tempo todo? Por que tantos flagrantes de reincidência são mérito do acaso, da delação ou da mera desconfiança policial, e não do monitoramento?
O Brasil não é um país acostumado a investir sério em tecnologias de segurança pública. Certas ações, quando não apenas midiáticas, vêm desprovidas de um contexto necessário de preparo e suporte completo, tanto humano quanto material, para realmente funcionar sem arestas. É o que liga nosso desconfiômetro. Sem falar nos casos clássicos. Como a tornozeleira pega num galo de rinha, em Canoas, enquanto seu dono traficava. O assaltante que horrorizava trabalhadores sem se importar com a tornozeleira, só identificado por mérito de umas câmeras de segurança. Ou o sujeito que matou o Sargento Mário, PM aposentado, ao assaltar farmácia de Porto Alegre, arma na mão e tornozeleira na canela. E tantos casos de tráfico e consumo de drogas. Todos estes criminosos devem ter passado pela avaliação de confiança antes de receber o benefício. E ludibriaram justo quem não pode se permitir enganar.
Nosso sistema público não toma conhecimento, por incompetência ou falta de estrutura, da quase totalidade dos crimes praticados contra o seu povo. A chamada cifra negra é muito alta. Muito por falta de confiança das vítimas sobre o depois. Os problemas se repetem e são muitos a macular credibilidades. Porém, o mais preocupante de tudo isso nem é o uso da tecnologia - esta, talvez um dia até se mostre mais eficiente, e precisava mesmo começar, pelo menos para tentar reverter o drama penitenciário, onde empilhar seres humanos como num lixão só alimenta o caos. O mais triste disso tudo é ver como ainda não sabemos inverter o jogo. Não sabemos prender. Não aprendemos a parar de prender. E, muito menos, sabemos soltar.