Oscar Bessi

A justiça de Tramandaí

Não se esvazia presídio com impunidade. Impunidade apenas permite criminosos de seguirem livres para cometer crimes e terem certeza de que não dá nada. E cidadãos inocentes são atacados. A todo momento.

A cena balança até os policiais mais veteranos e acostumados com o absurdo. A voz da menina de apenas 9 anos pede ajuda e, mesmo submetida a uma situação desesperadora há um dia inteiro, dá pistas lúcidas aos integrantes da Brigada Militar sobre a sua localização. E de repente avisa, confiante no socorro que finalmente chega, nos anjos que a resgatarão após 24h de puro horror: “ele me abusou”. O policial militar, angustiado, percorre todos os cantos da casa com seu parceiro, tenta localizá-la e diz “calma, confia em mim, o tio tá aqui!”. A gente sente um arrepio neste momento. Até que se revela o local onde ela estava: um alçapão, fechado por tampa de concreto, escondido sob caixas de cerveja. A gente olha e não acredita que alguém seria capaz de colocar um ser vivo ali, quanto mais uma criança.

O que aconteceu depois, todos sabemos. O monstro de Tramandaí foi linchado, não resistiu às agressões e morreu. E haverá quem questione: mas não se deveria dar a chance de se defender e confirmar se cometeu mesmo abuso? Bom, o abuso até poderá ser questionado, a depender dos resultados periciais. Mas não há como negar a monstruosidade de atrair uma criança tão pequena para dentro da sua loja (está filmado e há testemunhas), trancá-la em um calabouço, um buraco, onde fatalmente morreria sem ar, água e comida se não fosse encontrada pela Brigada Militar. Ter visto de perto as buscas desesperadas de pais, amigos e policiais pela criança, um dia e uma noite inteira, sem cogitar soltá-la de seu cativeiro ou voltar atrás em seu ato cruel. A própria criança – que se mostrou esclarecida e bem instruída já ao ajudar os PMs a localizá-la – disse que foi abusada e aí foi o estopim. Os policiais jamais conseguiriam conter a raiva de toda aquela gente, angustiada e indignada demais com o que acabava de ver.

Quando se criou a audiência de custódia no Brasil, várias autoridades falaram sobre a ideia de esvaziar presídios, pelo colapso no sistema carcerário. Mas não se esvazia presídio com impunidade. Porque impunidade é só não punir, quem discordar que compre um dicionário. Apenas permite criminosos de seguirem livres para cometer crimes e terem certeza de que não dá nada. E cidadãos inocentes são atacados. A todo momento. E já não aguentam mais. A esmagadora maioria do povo brasileiro é simples, mas paga um fardo gigante de impostos para ter pouca coisa em troca e luta todos os dias para sobreviver com dignidade. E é este povo que banca a coisa pública toda, cuja obrigação é atendê-lo, não lhe dar as costas com o nariz empinado e teorias fantásticas que só deixam a vida cada vez pior.

O monstro de Tramandaí tinha vários crimes, inclusive o assassinato de uma mulher. Não deveria estar solto para fazer o que fez. Mas estava. E antes que estivesse de novo, o povo interrompeu sua trajetória de violências. E que os teóricos de plantão saiam às ruas (embora não seja seu costume) e ouçam o povo. Que acha: houve justiça em Tramandaí. Porque se fosse levado, ele talvez já estivesse solto. Lamentável, não? É isso o que se está conseguindo no Brasil. Descrédito e insatisfação com essa impunidade que nos cerca, nos assalta e ataca todos os dias. Os linchamentos e vinganças serão cada vez mais comuns, se isto não mudar para ontem. Porque o povo está cansado de precisar se esconder, enquanto criminosos fazem a festa, livres por aí.