Então, o horror: encenando um sermão árabe em torno do altar, degolaram o sacerdote Jacques Hammel, de 86 anos. Mais: FILMARAM o ritual macabro para que a brutalidade fosse repassada aos seus e ao mundo. Hammel poderia estar aposentado desde os 75 anos, mas se sentia forte para seguir sua missão. E pasmem: amava trabalhar junto com a comunidade muçulmana, que o adorava.
A Polícia matou os dois terroristas. Um deles tinha vídeos gravados pedindo aos "irmãos" ataques ao mundo ocidental, em qualquer lugar, em qualquer momento, fosse onde fosse.
E já faz tempo que o Estado Islâmico está incentivando seus seguidores a agirem assim, ao abrir as portas à sua "jihad" (sua guerra santa muçulmana), anunciando que ninguém precisa mais ir até lá, onde o EI tem sua base. A guerra pode ser feita em qaulquer lugar. O mundo estremece. Não são apenas os locais públicos lotados de gente. Não. Uma pequena igreja rural também serve como alvo para a barbárie.
Mas e essa jihad? É legítima?
Não.
Primeiro, que nenhuma guerra é legítima. Jamais será.
As guerras religiosas nunca foram movidas pelas religiões em si. Basta olhar a História. As guerras religiosas, os discursos de intolerâncias, os atos de crueldade e terrorismo partem de homens. Sim, do coração dos homens, eles que escrevem e dizem barbaridades aos seus seguidores - que, no fundo, não passam de uma grande massa que se divide em dois grupos: os que precisam de esperança, de salvação espiritual, e os loucos úteis (minoria bem utilizada pelos manipuladores). E estes homens, que se intitulam líderes sem de fato, nem de alma, ser, não trazem consigo fundamentos religiosos como seu principal motivador aos gestos guerra. Pura ladainha pra enrolar seus crentes. Eles querem é poder. Grana. Petróleo. Controles. Dinheiro. No fundo, e no raso, esses falsos líderes religiosos não têm religião em si coisa nenhuma.
E é então que me refiro ao belíssimo gesto dos muçulmanos franceses. Nesta sexta, 29, eles foam até à igreja onde ocorreu a barbárie, fizeram um minuto de silênio em homenagem ao velho sacerdote morto pelos terroristas e oraram por todos. Católicos e muçulmanos. Todos juntos, lado a lado, cada qual com sua fé, mas cada um com a base de toda verdadeira fortaleza espiritual: o amor ao próximo.
E na mesquita muçulmana de Saint-Etienne-du-Rouvray, o Padre Auguste Moanda falou aos presentes, também compostos por católicos e muçulmanos (em meioria, claro, era um culto seu) que lá estavam: "Este acontecimento deve de nos ajudar a fortalecer os nossos laços de amizade e fraternidade. Somos chamados a construir pontes, não muros. Vocês sabem que na nossa humanidade, cada vez mais, são os muros que estão em processo de construção, e nós, os homens, os crentes, temos de dar o exemplo construindo pontes entre nós".
Neste domingo próximo, 31 de julho de 2016, muçulmanos franceses já se mobillizaram para ir à MISSA que homenagerá Padre Jacques. Aqui sim, temos líderes religiosos: cada um é, em si, dentro de si e de sua fé, um líder de esperanças. Boas esperanças.
Homens de amor, homens de pontes: ainda somos a maioria, creio nisso. Ainda que a humanidade caminhe bitolada e absorta pelo consumismo, imediatismo, superficialismo, individualismo e ganância. Mas precisamos fazer valer nossos gestos e nossas vozes. Ou pareceremos sempre minorias prontas para morrer.
