Oscar Bessi

A luz do olhar de uma criança

eyesDe repente, ao meu lado, ele para em meio às cores. E prescruta tudo ao seu redor sem a pressa que nós temos por hábito. Todo o seu corpo sorri: os dedos que me soltam aos poucos, os passos indecisos de encanto, os lábios que querem gritar de alegria - mas são tantos nomes, tantos reconhecimentos, tantas fantasias!

E os olhos dele? A luz plena de alegria mágica que sai de seu olhar me revela o instante de felicidade suprema. O universo inteiro, todos os sonhos e crenças estão ali, em uma loja de brinquedos.

Sim, é consumismo. Puro.

Sim, as crianças são instigadas a querer brinquedos que fazem parte de uma infinidade de personagens e produtos que invadem a sua mente, todos os dias, nos apelos mais diversos. Um negócio cruel. E sim, temos que ensinar outros valores, mostrar outras belezas, desnudar novos encantamentos. Mas que ser humano, em gozo de sua saúde mental, é capaz de ignorar o brilho no olho de uma criança? Que adulto consegue retirar, sem piedade ou paciência, aquela alma pura de seu mergulho na magia possível, deliciosa, que ela vivencia e acredita?

Eu não consigo. Tenho dificuldades. É que sou um pai muito derretido, desde a minha primeira filha, a Tuane, hoje com 23 anos.

Mas eu não posso comprar todos os brinquedos do mundo. Nunca pude. Eu não posso, aliás, comprar quase nenhum brinquedo dos que seduzem o meu filho mais novo, João, como não consegui com o Gê e a Tuane, que já não brincam mais. Eu não tenho o direito de ser o consumista que este mundo me pede para ser.

Mas aquela luz que vem do olhar da criança me desarma, me derrete. E de vez em quando eu faço um esforço, uma prestação, umas renúncias. E a felicidade deles compensa tudo.

Os caras que criaram essa indústria gigantesca dos brinquedos são muito espertos. Como é o pessoal da moda, do mercado automobilístico e tantos outros. Sabem vender. Mas os caras que criam brinquedos atingem o nosso emocional. Que nenhum adulto são consegue dizer que não adora ver sua criança feliz. Vale muito a pena, muito mesmo. Filho é o amor em sua plenitude.

Agora, a gente sonha com um mundo melhor, então pode trabalhar com nossos pequenos seu encanto por outras coisas que não apenas brinquedos. Livros, música, artes em geral. Dá para cultivar o belo de um abraço, de um beijo, da verdade que não dói e nem tem vergonha de ser verdade. O respeito pelos outros todos que podem ser bem diferentes, da gente, mas serão sempre iguais na essência humana. Das vozes que precisam ser ouvidas tanto quanto a nossa, mesmo que falem tudo ao contrário do que acreditamos.

Dá para cultivar o brilho no olhar pelo amor, também.

Afinal, brinquedos trazem sonhos e magias, mas são brinquedos, inanimados, e a troca um dia termina. Já com seres humanos é diferente. Pode ser eterna.