Oscar Bessi

A menina e o crack

Coluna da edição dominical impressa - 19/4/15




Ela tem apenas quatro anos. Mas não consegue brincar, não consegue se concentrar, não consegue iniciar-se no convívio social da pré-escola onde foi colocada, depois de ser transferida e retransferida pelas dificuldades de adaptação. Não tem um sono tranquilo e come mal. É irrequieta, por vezes agressiva, noutras mergulha numa tristeza e isolamento profundo. Poucos têm paciência com a menina. Seu grande mal foi ter sido gerada no útero de uma mãe usuária de crack, que não largou o vício durante a gestação. Como tantas outras crianças na mesma situação, ela é o que se pode chamar de uma crackeira passiva. Como os fumantes passivos sofrem os mesmos males dos que lhe soltam baforadas no rosto. Ela deveria ter tido um acompanhamento neurológico desde o seu nascimento, para ter alguma esperança na vida. Mas a coisa pública é emperrada e desumana, muitas vezes. Suas chances são poucas.

O Brasil tem meio milhão de usuários de crack. E pior: o Oxi está junto. Este caso é ainda mais cruel, porque campanhas milionárias de prevenção ao crack, cujo conteúdo é apenas midiático e lucrativo, o ignoram. Estão mais preocupados com a venda da logomarca do que com males humanos. Acontece que, apesar de muito parecido, o Oxi é mais terrível por ser fabricado de forma mais empírica: o crack é feito com pasta-base de cocaína misturada com bicarbonato de sódio e um solvente, éter ou amoníaco, já o oxi nasce da mistura dessa pasta-base de coca com cal virgem e gasolina ou querosene. O refinamento do crack exige processo laboratorial, digamos. Já para fazer Oxi, basta misturar em qualquer panela, em casa. Os traficantes cobram um preço menor e vendem como se fosse crack. A ameaça segue invisível e mortífera. E a rede de agressões, destruições, mutilações e crimes se alimenta com as almas dos nossos filhos.

Campanhas são importantes, pelo cunho educativo. Mas está mais do que na hora de ir além e se forma uma frente ampla e implacável de enfrentamento imediato, já que somos campeões mundiais deste horror. Que se previna no mais amplo sentido, desde a valorização, de berço, do ser em detrimento do ter, com engajamento de todos (famílias, escolas, comunidades, empresas, igrejas, etc.). Que se reprima forte os inescrupulosos traficantes, de todos os níveis, que lucram matando infâncias. E se faça recuperações com decência e vontade. Sim, porque é possível recuperar. O neurocientista Carl Hart, um negro, pobre e ex-ladrão, hoje doutor e autoridade mundial no tema, prova, no livro “Um preço muito alto”, que todas as crenças sobre irreversibilidade do vício no crack são falsas. Mas é preciso enfrentar tudo. Principalmente as origens das distorções. E que se pare, já, de condenar crianças a não ter qualquer chance na vida.