Oscar Bessi

A palavra que acolhe

Percebo que andamos, todos, o tempo inteiro, atrás de uma palavra que nos acolha. Que nos conforte, que nos estimule, que nos reconheça um mínimo gesto bom ou qualquer nesga de qualidade em nosso caráter. Que aconchegue, agradeça, nunca nos esqueça e retribua amores. Que nos valorize. Ou pelo menos nos ampare. E que seja travesseiro e bengala, ombro e confessionário. E esta palavra pode vir numa frase inteira ou em meia sílaba acompanhada de um olhar sincero. Mas precisa ser uma palavra que nos acolha. Chegar de um jeito convincente, que não seja trôpego ou com atenção ligeira e protocolar. Não. Que se importe, se encontre, se chegue. Se os piores males da modernidade são a depressão e o estresse, estes são o estopim de uma busca que desistiu de encontrar a palavra que nos acolheria. E, reféns de nós mesmos e de nosso desespero em desamparo, tornamos nossa vida interna um caos.

Quando a humanidade, muito ocupada com seus passos acelerados, suas ganâncias urgentes e seus umbigos inflados, esquece de estender uma mínima palavra que acolhe a quem está ao seu lado, eis que surge mais um perdido a bater cabeça entre buscas desorientadas. Quem sabe equivocadas. Eis alguém que vai se encontrar noutras palavras tortas, tentadas, atendadas. Pois se há os que buscam abrigo nas religiões, ou na fé, ou no místico, ou no amor talvez proibido, talvez escondido, talvez diferente, há os que se refugiam nas drogas, no álcool e noutros venenos. Nas violências que se vingam e na desumanidade que lambe com saliva ácida as suas próprias cicatrizes. Tudo, daí em diante, é um circuito de mutilações. O aproveitar da situação, o cantar das necessidades de regras com punições, intolerâncias e desrespeito ao individualismo arranhado. A palavra? Não veio. Nem importa mais. E os reféns do silêncio se multiplicam, implorando, lá no fundo de si, apenas por uma palavra que acolha. Uma palavra de carinho. De amor.

As palavras que acolhem têm, infelizmente, efeito rápido. Porque quase sempre chegam evasivas. Paliativas. Como uma dose de qualquer veneno ou tarja preta para a alma. Precisariam ser repetidas com certa constância. Com posologia. Sem ser desatentas, esparsas ou burocráticas: se forem falsas, geram mágoas irreversíveis. Ódios. Então, se perto de você houver agora um filho, um cônjuge, um namorado, o pai, a mãe, avô, amigo, colega de trabalho ou aventura, por favor. Ofereça uma palavra.

Meia sílaba, se lhe cansar a frase inteira. Mas que venha com alma e verdade.