Foto: Carmelito Bifano/Especial CP
Não são alegres as histórias que nos conta, hoje, o coração do centro histórico porto-alegrense. A Praça das praças padece. Assusta. Ainda que revitalizada, clama por vida, mas convive entre ameaças. Nem há três séculos, quando algaravias efervesciam eufóricas na praça das quitandas - um "baú de turco, mundo de quinquilharias", disse Athos Damasceno -, as sombras pareciam tantas. Falo da Praça Senador Florêncio. Oi? Perdão: Praça da Alfândega. O palco dos namoros suspiros de outrora. Das róseas fotos de lambe-lambe, dos livros e jacarandás. Não o paradouro de assaltos.É bem verdade que o problema nasce, sob estes espectros de grande escala e temores de irreversibilidade, nos anos 1970. O milagre brasileiro cobrava seu preço a pau e corda - ou a pau-de-arara. Desumanizou-se o belo, desestabilizou-se o plácido, atropelou-se tudo, nem aí para os todos. Lembro, menino, meu pai passar por ali a me segurar forte o braço, em alerta para batedores de carteiras com canivetes. Óbvio, qualquer centro de metrópole, em qualquer parte do mundo, é ancoradouro dos mais diversos tipos humanos. Suas índoles e objetivos. Mas algo de errado pulsa no centro do centro dos centros gaúchos quando cinco profissionais de imprensa, da mesma empresa, são assaltados no mesmo lugar, em apenas duas semanas. Triste ironia: sair do Correio do Povo, parceiro de infância, de juventude glamorosa da Praça, e ali ser atacado.
Quantos outros casos? Impossível saber. As estatísticas são débeis, insisto. Há muito o povo perdeu a confiança nos atos oficiais. E, por mais que entendam - registrar ocorrência ajuda a segurança pública a ter diagnósticos confiáveis e tomar providências -, não levam fé. A história dos poderes públicos brasileiros não ajuda. Nem a da confecção e interpretação das leis. Roubos? Furtos? Registra quem precisa alguma providência burocrática: segunda via de documento, seguro, etc. Hoje, então, nestes dias improváveis de conflitos públicos? Nem isto.
Não me atrevo a ditar a tal receita do bolo dos especialistas (tenho horror desta palavra empavonada!). Agora, que me perdoe as sempre esforçadas turmas da SMOV e do DIP, mas se há tantas e seguidas falhas e curtos no lugar mais central da capital gaúcha, já se deveria ter pensado outro sistema de iluminação. E uma base municipal de segurança. Em parcerias. Na humanização da praça para as vinte e quatro horas. E na inversão dessa lógica perversa de não passar por ali ou ser alvo e não reagir e rezar para não morrer e só. Vou torcer para que o pessoal da Serenata Iluminada crie uns sete exércitos, de música e luz, para ocupação integral do coração porto-alegrense. Pois a praça tem alma e pede novas histórias. Não novas vítimas.
