Oscar Bessi

A Rolha

Waiter serving wine to a customerAlguém já tinha me falado. Só que, na hora, deu um branco. Ou um tinto seco. Sei lá. Esqueci totalmente do que fazer. Culpa, eu sei, da minha falta de costume. Estou longe de ser um habitué – palavra que aprendi dia desses e achei bonita, aquelas de falar em meio sorriso e pose chique, habitué, habitué - de restaurantes finos. Prefiro churrascaria de posto de gasolina. Mais alegre. E em dia com a fornecedora de energia elétrica, que nesses locais elegantes, vou te dizer, é tudo na penumbra. As tais velas na mesa da gente é puro disfarce. Andam com a conta atrasada. Rá. Eu é que sei.

Estávamos nos dando bem, eu, a namorada e o menu. Entre pilhas de talheres diferentes e umas toalhas que o sujeito não sabe se põe no colo, no pescoço ou faz uma capa igual a do Super Homem e voa dali. Veio um garçom que parecia até deputado, de fatiota, só faltou oferecer o cardápio com uma meia e os nomes das suas empreiteiras prediletas. Informei que tomaríamos um vinho. Vinhozinho, eu ainda disse, pensando nalguma taça de garrafão da serra. Ele assentiu, calmo, muito sério e anunciou que o sommelier já vinha. Gelei. Isso era nome de vinho caro. Caríssimo. Ou de alguma entrada com salmão, caviar e outros bichos de três cifras. Quando outro rapaz chegou, com a carta de vinhos, busquei o tal sommelier. Ou someliê. Ou qualquer nome parecido. Nada. Aflito, perguntei, fazendo a carranca mais disfarçada que pude. E o sommelier? Cadê? Ele apontou para si mesmo. Frio. Ah, respondi. Na pressa de esquecer minha gafe, pedi uma garrafa que custava mais que um par de sapatos. Fazer o quê.

Meu sofrimento, porém, estava longe de acabar. O – agora eu sabia - sommelier veio com o vinho, fez um ritual em torno da garrafa que me fez lembrar o vestir dos sacerdotes nos atos de ordenação, e sacou a rolha, rápido no gatilho. Colocou aquele pedaço de cortiça na minha frente, recuou dois passos e ficou. Parado, me encarando. Eu olhei para ele, sem entender patavina. E para a rolha. Que me olhou. Eu, a rolha, a rolha, eu. E o garçom. Que nem era garçom, era sommelier. Até que ele desistiu de mim, recolheu a rolha e serviu duas gotas de vinho. Só. Para voltar aonde estava e ficar ali. Estático. Outra vez me encarando. Não tive escolha, fiz um sinal de positivo, disse que tudo certo, beleza, pode crê. E atendi o celular que nem tocou. Em seguida anunciei para a namorada, na próxima escolheria pastel. Com chope. Muito mais fácil, digamos. E com luz acesa.

(ilustração do site Arte do Vinho - artedovinho.com.br)