A terceirização dos filhos
A alguns causa espanto certos comportamentos das novas gerações. Quando a violência é banal, a agressão é gratuita, a falta de atenção ao próximo é instintiva e a superficialidade nas relações se torna regra. E alguém culpará algum jogo de videogame por atos violentos de garotos, por exemplo. O que não passa de um popular “tira do meu”. Eu, por exemplo, assistia a todos os filmes de faroeste italiano (tão cômicos quanto violentos), brincava com arminha de brinquedo e nunca briguei no colégio ou pensei em dar tiro de verdade em alguém. É que eu tinha uma mãe que era o carinho intenso em pessoa. E um pai que vivia me dando orientações sobre tudo (tá, ás vezes eu o achava um chato, mas ainda hoje sigo seus conselhos, agora entendendo melhor o que ele queria me dizer).
O drama de uma geração sem apego e vulnerável à violência e aos vícios nasce em casa. Na falta de carinho. Na falta de entender que, no momento em que alguém se torna pai ou mãe, este filho é prioridade. Não é mais o clube de amigos, as reuniões fora do expediente, os eventos sociais que pipocam para vender quanto mais ingressos melhor. Não. É preciso renúncias. É preciso não ter vergonha de dizer “desculpe, não posso ir, ficarei com meus filhos”. E saber organizar passeios que sejam para eles, não apenas leva-los de arrasto nos nossos e forçar um “ele me acompanha em tudo”. Atividades em casa ou nos parques que sejam para eles. É isto ou reclamar que a meninada não sai da internet: mas ali, naquele mundo virtual, tem a atenção de alguém. E quem é este alguém? O que faz? Outro erro é achar que, por ser um sujeito muito ocupado e dar a graça de cinco minutos diários de convivência com o filho, aí precisa deixá-lo fazer de tudo, mesmo o incorreto, ou o que for agressivo, porque, afinal, não vai chamar a atenção dele: já ficam juntos tão pouco tempo! E é bom lembrar que bens materiais não compensam a falta de atenção. Brinquedo caro não tem a força de um abraço apertado e um beijo e uma conversa franca e sem medo. Nunca terá.
Então os pais e mães, conscientes de sê-lo ou mesmo acidentais (um grande problema enfrentado pelo SUS, aliás, os casos de adolescentes em gravidez indesejada), precisam parar para pensar na questão de suas loucas correrias modernas. No fazer mais e mais para ter mais e mais. Compensa? Tá, é bom, é saudável conquistar. Lutar. Batalhar. Mas jamais será saudável sonegar amor a quem precisa tanto dele. E não há criança que não sinta falta do afeto de pai e mãe, afeto este que não tem como terceirizar em creches, babás ou parentes. O amor de pai e mãe é único, insubstituível. Precisa ser ofertado com a máxima intensidade possível. Negar isto é alimentar um mundo sem carinho, sem respeito, sem humanidade. E com muito pouco de esperança.
