Essa triste cena de Passo Fundo se repete em silêncio em muitas casas por aí. Mais do que possamos imaginar, infelizmente. Duas crianças pequenas, três e quatro anos, trancadas dentro de um lar que deixa de ser abrigo e passa a ser ameaça. Uma noite inteira sozinhas. Escuro, medo, fome. A notícia vem do interior gaúcho, mas poderia vir de qualquer esquina do país. Porque o abandono infantil não grita. Ele acontece atrás de portas fechadas, enquanto a vida adulta segue como se nada tivesse sido deixado para trás.
Ser pai e ser mãe não é apenas gerar. É permanecer. É entender que uma criança não sabe se defender do fogo, da tomada exposta, do gás de cozinha, do vidro quebrado, do remédio colorido que parece bala. Não sabe lidar com fome, com sede, com dores, com as próprias necessidades fisiológicas, com o choro que não encontra resposta. Crianças não sabem esperar. Elas dependem. Totalmente. E quando essa dependência é ignorada, o que se quebra não é só a rotina. É algo muito mais profundo.
A pergunta inevitável, para além de se tentar saber onde foi a mãe, o que ela foi fazer e o que ela tem na cabeça para fazer algo assim, é: e onde está o pai? Ou os pais? Onde está a rede mínima que deveria proteger duas vidas tão pequenas? A rede que é muito mais do que os organismos públicos de proteção, começa na própria família, nos amigos e vizinhos que sabem muito bem o que acontece. E se calam. E permitem que se repita. O abandono raramente é um ato solitário. Ele costuma ser coletivo. É a ausência de quem gera, de quem convive, de quem sabe e finge não saber. Familiares disseram que não foi a primeira vez. E isso talvez seja o mais assustador. Não foi exceção: foi hábito.
Em quantas casas isso acontece agora mesmo? Quantas crianças estão aprendendo cedo demais que não podem contar com ninguém? Que crescem com medo, desconfiança e um vazio difícil de nomear? Que amor e cuidado são palavras distantes cujos significados não se consegue entender? Que respeito e humanidade é um conceito abstrato do qual nunca ouviram falar, quanto mais sentir e entender que existe? O futuro dessas crianças não começa na escola ou no mercado de trabalho. Começa aí, nessas noites longas, onde o abandono ensina lições duras demais para quem mal aprendeu a falar.
Talvez a pergunta mais incômoda seja esta: por que se concebem filhos sem qualquer preparo emocional, sem estrutura mínima, sem responsabilidade? Gerar não é destino biológico inevitável. Não pode ser resumir ao resultado acidental da farra após a festa. Conceber, criar e cuidar é escolha diária. E quando essa escolha não acontece, não estamos diante de um erro momentâneo. Estamos diante de uma falha grave de humanidade. Que não pode mais ser tratada como algo normal. Porque não é. Nunca foi. Nem podemos permitir que se banalize desta forma.
