Oscar Bessi

Agressões no carro de aplicativo: como anda a homofobia no RS?

Ninguém deveria precisar de coragem para simplesmente ser quem é. No país, o Rio Grande do Sul lidera o número de crimes contra a população LGBTQIAPN+ pelo segundo ano consecutivo, com mais de 1,4 mil casos registrados em 2025, entre agressões físicas, psicológicas e violações dos direitos humanos.

O final de semana em Porto Alegre terminou com mais um caso de preconceito e violência que repercutiu mundo afora. E que dói. Um casal LGBTQIA+ agredido dentro de um carro de aplicativo. Não foi só violência física. Foi medo. Foi humilhação. Foi o velho preconceito que insiste em andar de carona pela cidade.

O motorista nega ter ofendido a orientação dos (quase) passageiros, mas assume as agressões. Qual o motivo, então? Uma das pessoas passando mal? E por acaso isto não acontece quando se lida com o público em geral? Se você, suas crianças ou seus pais idosos estiverem mal e precisando ir com urgência a um hospital ou posto de saúde, nesses casos que o SAMU não contempla, então é proibido pedir um carro de aplicativo porque pode vomitar? Vai como, então? A pé? Certo, sabemos que não é fácil conduzir passageiros, principalmente em finais de festas, que passam mal e vomitam. Mas aí reside a possibilidade da livre escolha. Há outras opções e empregos disponíveis por aí e ninguém é obrigado a ter aptidão ou paciência para lidar com o público. A não ser que se disponha a isto. Ainda mais sendo pago.

Ok, o direito à defesa existe e precisa ser respeitado. Ainda assim, a empresa responsável pelo aplicativo pediu desculpas públicas e afastou o condutor, afirmando não concordar com este tipo de atitude. Violência alguma pode ser tolerada. Com ou sem preconceito. Agora, cabe à investigação policial esclarecer os pontos controversos. E casos assim reforçam uma urgência antiga: câmeras em transportes públicos e também em carros de aplicativo. Para proteger passageiros. E motoristas.

Porém, está certíssimo o brado de uma das vítimas, em entrevista à TV Record Guaíba, quando diz que este caso, como tantos outros, precisam se tornar ponto de resistência. Os números não deixam espaço para conforto. No Rio Grande do Sul, o estado lidera o número de crimes contra a população LGBTQIAPN+ pelo segundo ano consecutivo, com mais de 1.100 ocorrências em 2024, superando todos os demais estados do país, e mais de 1,4 mil casos registrados em 2025, entre agressões físicas, psicológicas e violações dos direitos humanos. E, pasmem: nossa Porto Alegre, historicamente tão diversa, cultural e de vanguarda, está no topo do ranking.

É um retrato do país também. Segundo organizações que monitoram esses crimes, em 2025 uma pessoa LGBTQIA+ foi morta a cada 34 horas no Brasil — um dado que traduz a gravidade do ódio que ainda encontra espaço nas ruas, nas casas, nos locais públicos. A violência está aí, nos números, nas vidas interrompidas e nas histórias que poucas vezes chegam às estatísticas oficiais porque muitos casos sequer são denunciados.

As vítimas de Porto Alegre falaram em resistência. Em continuar existindo. Em não aceitar o silêncio. Organizações de defesa dos direitos humanos alertam para outro drama: a subnotificação dos crimes e a impunidade que ainda maculam dados e prolongam dores. Há medo de denunciar. Há violência que se repete. E isso distorce a realidade.

Desde 2019, o Brasil tem uma decisão clara. A homofobia e a transfobia foram enquadradas como crime de racismo, com base na Lei nº 7.716/89 por decisão do Supremo Tribunal Federal. A lei existe. O que ainda falta é que ela seja sentida na rua. Nos locais públicos. Nos lugares privados. No volante. No banco de trás. E, sobretudo, no respeito cotidiano.
Porque ninguém deveria precisar de coragem para simplesmente ser quem é.

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