Oscar Bessi

Ah, os pais, os presentes!

No meio da semana dos pais, ingresso em Santo Antônio da Patrulha, após muitos anos. Agora como um dos escritores homenageados pela 6ª Feira do Livro. “Temos tempo, vamos aos teus lugares de infância”, propõe minha esposa. Eu aceito na hora e a emoção me invade ao rever os campos e céus de Morro Grande, onde o melhor amigo do meu pai, Seu Guarani Machado, tinha as terras, a figueira e o galpão que inspiraram meu livro “Rasantes Campeiros”. Gil Kipper estava a muitos quilômetros dali, em Santa Cruz do Sul, quando desenhou o “Capão Azul” igual ao da vida real. E só pela descrição do que nem lhe contei ser parte de minhas lembranças.

À noite, bate-papo sobre leitura, humanização e qualidade de vida. Na plateia de autoridades, escritores e comunidade que lotou o auditório, a Patrona Solange Grandini, o Prefeito, Dr. Paulo, que acompanhou o Guarani até seus últimos dias, e o velho amigo Luiz Nicanor, da Casa do Poeta. Ao meu lado, Rosalva Rocha, presidente do Grêmio Literário Patrulhense e outra querida de longa data. E o grande escritor e cirurgião Dr. Fernando Lucchese. Que, além da relevância para a sociedade gaúcha e brasileira, em minha família deixou marca especial quando sua equipe permitiu ao meu pai ficar mais tempo conosco. Essas belezas nas coincidências da vida me emocionam. Na histórica terra de Seu Aldo Machado Flor, pai do Telmo, o presente ia muito além da homenagem em si. Eu reencontrava meu pai e era outra vez só o menino que descia do fusca bege para abrir a porteira. Devo isto ao leitor do Correio do Povo que, um dia, levou estas colunas à Secretaria de Educação, com a honra de um “vale a pena ler”.

Quinta, a Defensoria Pública gaúcha fez na Redenção, em Porto Alegre, mais uma ação do fantástico projeto “Pai? Presente!”. Três anos e milhares de casos atendidos. Dr. Lucchese, naquela noite, ainda falou sobre gravidez na adolescência e o SUS. Entre drogas, violência sexual ou desapego, muitas crianças que vêm por acidente. Sem qualquer consciência, nos que os geram, sobre importância e complexidade de ser responsável por alguém. Quantos crimes e criminosos começam aí, nestas ausências? Sem a educação primeira do afeto e proteção? Pode ninguém responder “presente!”, ao chamarem o pai, como pode até responder sem saber que estar presente é mais do que só estar. É se importar, perceber, crer no respeito e no amor. O que os filhos perceberão, ou não. Hoje, ao lembrar meu pai que se foi, penso no que entendi como filho e se agi acerto ao me tornar pai. Não sei. Talvez nunca saibamos. Só podemos – devemos! - tentar. O maior presente, neste domingo, é este. A presença. De verdade.