Oscar Bessi

Além das mortes

Coluna da edição impressa - 04/01/15

E 2014 não encerrou bem. Dois policiais militares executados. Outros quatro servidores da segurança pública atacados. Isto em apenas três dias, num modus operandi que combina com alerta supostamente espalhado pelo DEIC São Paulo sobre ordens do famigerado PCC: matar policiais, em todos os cantos do país, fazendo parecer latrocínio. Teria o descompasso do terror, já vivido mais de uma vez em outros estados como São Paulo e Santa Catarina, chegado aos pampas? É resposta que urge. E que não pode borboletear entre canetas e gravatas receosas da realidade ou de sua mídia indesejável. A tão aplaudida e esperada transparência pública é quem pede as verdades. Sejam quais forem. Além de uma óbvia questão de respeito aos profissionais que, por opção, oferecem o risco de sua própria vida pela sociedade gaúcha.

Não são apenas assassinatos. Por mais que sejam, ambos, tão vis e brutais quanto todos os outros que ocorreram contra cidadãos comuns. Há perdas além da dor insuperável dessas famílias, dilaceradas pela violência, ou até da sensação incômoda de vulnerabilidade que espanta. Eram policiais. Homens que, por ofício, representam o Estado e seu povo. O conjunto democrático de direitos, liberdades e sonhos. A soberania. O respeito dos cidadãos de todas as classes, cores e credos. Que esperam do poder público, por eles sustentado, um contexto de lei e de ordem mínimas para que se chame de civilizada esta nossa sociedade. E que exista lampejos de racionalidade real na convivência de nossa espécie. O policial representa, por essência, o olhar atento na garantia do limite que não invade a liberdade do outro. Ainda que, em determinados breus do tempo ou do espaço, tal essência tenha sido sufocada por quaisquer arbitrariedades.

Não pode a representação da cidadania ser ultrajada por quem se diverte matando e roubando. E se divertem, eis que há autorização legal, de um sistema confuso e caótico, para que suas armas saiam arrecadando bens sem o suor de um trabalho, ceifando vidas sem o menor escrúpulo ou temor de punição. A bagunça legal permite, premia com indultos e parece até interessada em manter este ciclo interminável de proliferação dos assassinos banais. A violência parece conveniente e desejável, eis que só faz crescer, seja pela falta da educação que transforma ou de uma correção que estanque seus efeitos indesejados. Qual o sentido de chamarmos tais mortes de normais? Que 2015 traga sensibilização e mudança. E movimentos decisivos na direção de dias mais calmos. Há anos que esta caixa d’água vaza, sem parar, cada vez mais. Mas ainda se fala apenas em comprar baldes, nada além. E só quando a goteira molha as pantufas do dono da casa.