Oscar Bessi

Anjos também usam boné

12122836_457604081089973_2456326220662159136_nFoto: Dorvalino, sua filhinha e eu.

 

Final de semana passado, meu GPS queria que eu fosse a Caxias de ré, para o Encontro Gaúcho de Escritores. Eu o ignorei. Ainda bem. Foi um dos grandes momentos da nossa literatura em 2015, promoção da AGEs em parceria com a Feira do Livro caxiense. Políticas públicas, criação literária, perspectivas e impasses em debates com Ministério da Cultura, Sedac RS, a gigante Tânia Rösing, além da possibilidade de ouvir mestres como Assis Brasil, Altair Martins e os patronos Dilan Camargo e Uili Bergamin. Tive a honra de mediar mesa com as Academias Sul-brasileira, Rio-grandense, Gravatalense(SC), Caxiense e Passo-fundense de Letras, mais Casa do Poeta Brasileiro e AMES. Conheci o escritor Doralino Souza da Rosa, de Igrejinha, que entre rock anos 70 e gibis antigos na casa-estúdio-atelier de Claudio Troian - o querido juiz que validou meu gol ilegalíssimo no futebol entre escritores - me falou de sua obra.

No amanhecer chuvoso de quinta, rumo à Feira do Livro de Três Coroas e nervoso pelo tombo de minha mãe (levada ao hospital), decidi ignorar outra vez o GPS. Joguei-o no porta-luvas e acabei perdido. Conhecimento: a gente o domina, ou suas bengalas pregam peças. Menos mal que Jaime Emerich, o homem-cultura da cidade, é a simpatia em pessoa. E ator: que o digam Cacá Melo e Marcelo Maresia, astros da criançada que levaram Jaime a dançar no palco. A chuva não atrapalhou nada e a Rua Coberta lotou de sorrisos empolgados, magia e sonho. Reencontrei Doralino, autor de "Anjos também usam boné". Que livro! Que contos! Henrique Schneider avisa na apresentação: os temas vêm nas ruas, do desamor, da morte que não deixa lágrimas, ao mesmo tempo em que traz ternura, poesia e o calor de pequenos sonhos "na contraluz das esquinas, no carinho dos desvalidos, nos anjos de boné".

Doralino foi Conselheiro Tutelar por sete anos. Um apaixonado, militante da vida e de dias melhores a nossas crianças e adolescentes. Como ele, conheci muitos conselheiros fantásticos na minha vida (até casei com uma). Outros, nunca entendi o que queriam. No pleito da semana passada foi triste ver denúncias como compra de votos, ameaças e transporte de eleitores. Eleição para conselheiros tutelares devia ser nobre por essência. Inadmissível, isto! Nossos anjos precisam de um exército de Doralinos, não de monstros disfarçados. E quem é dado à corrupção jamais vai se importar com a vida de alguém. No mês da criança, também pe preciso abrir os olhos. Aliás, fica a sugestão: um livro como presente aos seus filhos no dia de hoje. Humanize-se. E humanize-os consigo. Dias sem violência não virão de outra forma.