Oscar Bessi

Armas e deuses

Não há medidor possível que seja capaz de comparar as dores da alma. O que existe é a dor. Como jamais haverá violência maior ou menor. Serão sempre violências. E para sempre absurdas, incompreensíveis, ainda que assustadoramente típicas de nossa racionalidade e, por isto, velhas conhecidas. As mortes no ataque de extremistas islâmicos ao jornal satírico francês Charlie Hebdo trazem, consigo, a mesma dor de tantas mortes absurdas que a humanidade permite acontecer, todos os dias, em todos os cantos do planeta. Por motivos banais. Por intolerâncias de toda ordem. Em sua plenitude injustificável da aberração com a qual nos acostumamos a conviver - e se acostumar com a violência é a contramão da liberdade.

Três policiais mortos num único dia. Mas os alvos eram os outros. Eram jornalistas. Humoristas. Cartunistas. Escritores e artistas. Homens desarmados que tinham a missão, nesta vida, de provocar reflexões com bom humor. Homens necessários. Como é necessária a crítica atenta às tropelias dos nossos “líderes”. Ano passado, numa solenidade, o meu amigo cartunista Versa, gênio do traço e das idéias ligeiras, agradeceu seu prêmio principalmente aos homens públicos, que continuavam fazendo burradas (não foi bem esta a palavra) e alimentando suas charges. Perfeito. Um jornalista não é culpado pela notícia ruim, ou caricata, mas sim os seus protagonistas.

Charb (Stéphane Charbonnier) postou sua última charge não muito antes de morrer. Assustadoramente profética, falava sobre a França não ter sido alvo de ataques. Um extremista alertava: ainda não haviam enviado seus votos de Ano Novo. Eu era fã de Cabu (Jean Cabut), veterano da guerra da Argélia que, depois de ver o horror das mortes sem sentido, se tornou antimilitarista. É assim. A gente só conhece o jeito do horror quando dá de cara com ele. É de Cabu a famosa charge publicada em 2006, onde Maomé chora e lamenta ser difícil ser amado por tolos. Foi processado por um grupo de organizações muçulmanas francesas. Ganhou. Era um manifesto pela livre expressão, não contra muçulmanos. Eles satirizaram presidentes e até Papas. Os intelectuais da Charlie não poupavam quem, do viés político ou religioso que fosse, agisse como inimigo da liberdade.

Países de maioria muçulmana reconheceram a vergonha do terrorismo. Mas seguidores de Maomé sofrerão retaliações injustas por todo o planeta. A onda de intolerância se multiplicará e outros extremistas virão. Porque os deuses não fabricam armas, nem lucram com as mortes, seja lá do Estado Islâmico ou aqui do PCC. São homens. Em pleno uso de suas faculdades mentais. Esses é que precisamos enfrentar. Sim, as luzes da torre Eiffel se apagaram, envergonhadas. Mas as luzes dos pensadores da Charlie Hebdo, e de todos os militantes da liberdade mundo afora, jamais se apagarão.