Ainda não se entendeu o real motivo. O fato é que a notícia só veio depois. O prefeito de Porto Alegre viveu os mesmos instantes de terror que o seu povo já está, infelizmente, habituado a aceitar como seu cotidiano. Aceitar? Eis o perigo: admitir, se render, não reagir. A cidadania ter que se esconder não é um bom sintoma. Processo que não começa no povo, mas nele termina e nele é que marca e dói. Lição de Mujica: talvez gestores públicos andem carentes de sentir, de viver o que vive o seu povo para entender e se importar, então agir de acordo com o que ele realmente precisa. O prefeito, por linhas tortas, viveu e sentiu.
Amigos e leitores da minha terra natal enviam alertas desanimadores. Assaltos, mortes, ataques sem freio. Idosos e crianças, bancos e hospitais, supermercados e becos. O improvável se torna probabilíssimo e não tem hora nem lugar. A gigantesca São Paulo respira dias melhores em sua poluída cena. O oportunismo sorri e aproveita, faz festa, sopra o fogo em direções convenientes ao seu leme e incentiva o medo, ou o ódio, ou a cegueira, ou todos juntos sob lágrimas alheias e interesses difusos. E não são as polícias que estão paradas. Não, elas nunca pararam, pela entrega da maioria silenciosa de seus policiais da linha de frente. Quem sabe engessados, quem sabe esquecidos. Quem sabe atropelados pela inércia contagiosa.
Esta inércia tem outro nascedouro. Que não é novo, arrasta o que deveria ser público em avalanche e joga o povo, amarrado entre cordas invisíveis, contra o paredão de suas incertezas e medos. Bons alvos para o achaque generalizado de ladrões, com pistolas ou gravatas de grife. É preciso um reforço nas ruas? Pelo que se vê, passou da hora. Mas é só isto? Declarar guerra aos seus e tudo estará resolvido? A violência só agora, nos patamares insuportáveis, resolvida no confronto e nada além é o atestado de óbito antecipado da liberdade. Há que ser mais. Muito mais. Há que sentir e se importar com a origem, também. Olhar o alvo primeiro, os corações sob a mira, e o que eles precisam, se é pólvora ou atenção. Esta inércia que amamenta sangue não é só a Força Nacional que vai resolver.
