O que espanta, no caso das meninas mortas de forma cruel - sim, cruel! - na BR 386, é o contexto. Os descasos. Não só na explicação do motorista, que alega não ter visto o rodado sair do caminhão e atingir as crianças. É possível isto? Independente da resposta, já passou da hora de se retomar outras vias para transporte de cargas. Os riscos são vividos, diariamente, por todas as partes envolvidas. Mesmo os caminhoneiros. E quem é responsável por deixar que um veículo trafegue a ponto de perder suas rodas? A Polícia investiga e saberemos o resultado.
Agora, dói saber que crianças esperam seu transporte escolar em locais de risco. O desabafo do líder caigangue é justo. Depois da tragédia, mas só depois dela, os indígenas serão cidadãos. O transporte escolar se dará ao trabalho de apanhar estudantes na aldeia - que fica perto da rodovia. O seu lixo será recolhido. E haverá iluminação. Mais uma vez, tarde demais. Três vidas se foram. Três vidas que recém começavam a viver.
Há quem diga que os índios não pagam impostos, são irregulares, etc. Mas quem eram, mesmo, os donos de todas estas terras por aqui? Sim. Os que hoje precisam chorar mortes para provar que também são seres humanos. Eles estavam no modo seu viver quando houve a invasão dos que, à base de sangue, se apossaram de tudo.
Repetem-se erros do caso Bernardo: a atenção vem depois da tragédia. E de um jeito que dá a impressão de não ser para sempre, nem sincera, ou teria sido atenção muito antes. Outras crianças, bem perto de nós, esperam seus transportes para a escola em rodovias até sem acostamento. Outras mortes já aconteceram e outras ainda acontecerão. É preciso tanto sacrifício?
