Oscar Bessi

As meninas que só queriam sonhar em paz

Tentamos ensinar aos nossos pequenos: vamos atravessar ali na faixa de segurança, é o lugar mais protegido para o pedestre cruzar a rua. O problema é que o trânsito seria perfeito se houvesse uma educação mínima dos seus diversos atores. Qualquer respeito mútuo. Seria simples, fácil e seguro. Mas não é. E o que aconteceu em São Caetano mostra isso claramente.

Quando Paul McCartney fez os desenhos de quatro homens atravessando a rua numa faixa de segurança - imagem que depois foi escolhida pelos integrantes do Beatles para ser, em foto, a capa do icônico disco “Abbey Road” -, talvez ele tenha pensado apenas em retratar um refúgio qualquer. Um lugar, pelo menos simbolicamente, seguro naquelas metrópoles que já começavam a se ensaiar caóticas naquele final dos anos 60. Pois é o que até hoje tentamos ensinar aos nossos pequenos: vamos atravessar ali na faixa de segurança, é o lugar mais protegido para o pedestre cruzar a rua. Pelo menos eu ensino (e, de fato, faço) isto aos meus filhos. Vocês também? Então. O problema é que o trânsito seria perfeito se houvesse uma educação mínima dos seus diversos atores – pedestres motoristas, ciclistas e etc. Qualquer respeito mútuo. Seria simples, fácil e seguro. Mas não é. E o que aconteceu na cidade de São Caetano, região metropolitana de São Paulo, mostra isso claramente.

Todos nós vimos as imagens, esta semana, dessa tragédia criminosa. Duas meninas foram assassinadas brutalmente por um motorista e seu carro, enquanto atravessavam a rua na faixa de segurança. Elas tinham apenas 18 anos. Elas tinham uma vida pela frente, sonhos em profusão, mil planos. Elas tinham a graça da juventude e a leveza dessa gente tão simples de alma e coração, como tantos de nossos filhos e colegas e amigos, uma gente que sorri fácil e quer apenas batalhar, todos os dias, para merecer uma felicidade almejada. Uma delas começaria no seu primeiro emprego dentro de alguns dias. A gente olha a cena e se emociona. Elas conversam, animadas, até que o sinal para os veículos fica amarelo. E como há um carro ao longe elas atravessam a rua. Mas o carro vem numa velocidade acima do previsto, e do permitido, e, mesmo com toda a pista larga para desviar, acerta as duas meninas em cheio. Elas são arremessadas a 50 metros de distância. Daí já é possível ter uma clara noção da velocidade. Elas não tiveram chance de se defender. De escapar. De sequer entender por que os seus sonhos, seus planos e seus amores seriam brutalmente interrompidos naquele instante.

É de John Lennon a música “Imagine”. E eu gosto demais deste trecho: Imagine all the people/ Living life in peace/ You may say I'm a dreamer/ But I'm not the only one/ I hope someday you'll join us. (Imagine todas as pessoas/Vivendo a vida em paz/ Você pode dizer que sou um sonhador/ Mas eu não sou o único/ Eu espero que algum dia você se junte a nós). Nada que possa ser feito terá o poder de trazer de volta a vida dessas duas meninas. Haverá, talvez, a justiça das leis, mas nenhuma justiça verdadeiramente suficiente a estas almas e à dor dos seus familiares. E as faixas de segurança, neste país que mata mais seres humanos no trânsito do que a maioria das guerras do planeta, seguirão sendo lugares nunca totalmente seguros. Porque sempre haverá alguém que não se importa. O que resta é seguir sonhando que, um dia, isto não seja mais algo tão banal e as pessoas queiram, de verdade, do fundo do seu coração, viver suas vidas em paz. Cientes de que todas as vidas importam – e é isto que chamaremos respeito.

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