Oscar Bessi

As palavras sádicas

É estarrecedor o diálogo transcrito pelo Correio do Povo na edição de hoje. A Polícia Civil encontrou nas redes sociais (que belo trabalho, hoje fundamental, monitorar as redes sociais e suas milhares de possibilidades!) conversas em áudio gravadas pelos supostos envolvidos na morte de um menino de 17 anos, em Charqueadas. Eles se divertem com o modo como mataram. E eu fiquei me colocando no papel do jovem agredido, e do pai (eles conheciam o pai, os agressores? Pois me parece que a vítima fatal não, sequer sabiam seu nome) que era agredido ao lado. Os momentos de desespero ao levar garrafadas com toda a força no rosto. Os autores do crime debocham do choro daquele menino que estavam matando. Como um ser humano pode ser tão cruel?


Pode. E é. Estes rapazes não são os únicos. Certa vez, eu e meus colegas de farda supreendemos um adolescente praticando um arrombamento na madrugada, numa residência. Levamos eles e o material apreendido para a delegacia. O plantão nos pediu que, enquanto providenciava registros, déssemos um pulo onde o menor morava, a fim de trazer seus pais. Fomos. Quase três da manhã e chegamos a uma casa que não era casa. Era um amontoado de madeira e papelão, com sujeira das mais variadas espalhadas no entorno e dentro do barraco, que não tinha piso. Dentro dela, um homem dançava no escuro, agarrado a uma garrafa de cachaça. Reagiu com indignação à nossa presença, óbvio. Disse que o guri (que chamou de "aquela praga") não era dele, era da sua mulher. E onde ela está, perguntamos? Veio à porta e apontou um boteco mais adiante, onde a fulana, também bêbada, ou também drogada, dançava com outros decadentes em mesmo estado. "Tá lá, aquela vadia, dando pros outros, aí me deixa aqui, cuidando dessa peste". Ele falou isto e deu um chute no escuro em algo que se movia e julgamos ser um gato.


Não era. Era um bebê. Engatinhando. Todo cocô e sujeira.


Agora imaginem se essa criança, um dia, vai entender algo fora da fúria cega, do desamor, da dor latente e implacável da vingança. Será um adolescente para quem matar será um ato banal, torturar não terá grandes implicâncias, bater é dialogar, roubar é quase um direito.


Eu imagino que estes autores da morte sejam assim. Tenham este tipo de origem. E que nós, sociedade brasileira, não temos competência para recuperar estas pessoas, infelizmente. Muito menos na origem, o que dirá depois, quando já estão transformados e forjados por seus desastres. Outras vítimas virão, é certo, até que a morte os retire dessa triste cena.


Agora, vou lhes confessar uma coisa: um diálogo desses me choca tanto quanto as gravações de corruptos no poder, gerando maracutaias que nos matam e nos condenam e nos torturam todos os dias. E também rindo. É o mesmo sadismo. O que nos condena a viver neste breu permeado pelo medo e pela capacidade natural de nos tornarmos feras destrutivas.