Oscar Bessi

As selfies do ódio

Não é de hoje que há esses humanos que se orgulham de suas barbáries. Quando europeus invadiam mundos, por exemplo, arrasando povos, matando inocentes, inclusive mulheres e crianças, em nome de suas estúpidas conquistas ou dessa nossa ganância absurda e simples. Algumas dessas chacinas executadas em nome de Deus, contrariando tudo o que pensava um doas maiores pacifistas que a humanidade conheceu, Jesus Cristo. Mas empunhando sua cruz, imagem e bandeira e, em nome dele, empilhando crueldades. Ou, outros tantos, apelas levados pelos seus egos inflados, nos tempos das lanças ou dos tanques, como líderes que a História por eles mesmos contadas (os que morreram não puderam dar sua versão) transformou em o Grande, o Magno, o isso e o aquilo, sempre endeusando o grande chefe dos grandes massacres. Hitler, Médici, Stálin, Fidel, Pol Pot, Napoleão, Custer, Césares, Czares e outros. O que os difere dos loucos anônimos de hoje?

Os soldados de ontem precisavam de um grande líder. De um louco com discurso vibrante e convincente, que lhe preenchesse a alma e o coração, que lhe emprestasse autoestima, mesmo que falsa, ao não se saber cabeça de gado descartável no jogo do poder. Hoje, não. O grande líder é o desejo bizarro de aparecer. A notoriedade não vem de estratégias militares assassinas. Vem de pesquisas no google, selfies para redes sociais, vídeos com mensagens vibrantes e, sozinho, um assassino consegue sua fama sanguinária, sem servir a generais. Seu ódio? Nem ele sabe ao certo. No tsunami de cabeças-ocas que o mundo globalizado, superficial, robotizado e consumista criou, há imensos campos vazios repletos de adubo podre, prontos para receber qualquer falácia mais ou menos engrenada. Tudo vira crença. Tudo vira fanatismo. E o próximo passo, depois da frustração, depressão, desilusão e decepção com tudo o que o cerca, é o ódio.

Minha esperança ainda reside nos pais que pegam seus filhos no colo. Nos homens que se abraçam. Nas famílias que ouvem atentas as histórias de seus avós e admiram suas histórias, suas lutas pessoais, suas conquistas. Minha esperança reside nos pequenos gestos. Não acredito nesses gestores públicos de desculpas esfarrapadas e discursos vazios. Creio no que cada coração pode fazer consigo e com os seus. Há um movimento contrário, nos povos, que busca nossas identidades, nossas verdades, nossa blindagem contra essa loucura massificada aí fora. E que comece num pequeno detalhe: a selfie. Moderação. Calma. O narcisismo e o egoísmo são as primeiras engatinhadas ao ódio.