Oscar Bessi

Barbárie com diploma: o bolão do horror

A gravidade do episódio reside na frieza do planejamento

O ambiente universitário, historicamente consagrado como o berço do pensamento crítico e da evolução civilizatória, foi palco de uma notícia que fere a alma coletiva: a existência de um suposto “bolão” entre estudantes da Universidade Federal do Paraná para planejar e executar estupros contra suas colegas. O fato de tal arquitetura de violência ter surgido dentro dos muros de uma instituição de ensino superior não é apenas um crime; é o sintoma de uma falência moral profunda. Quando o intelecto é colocado a serviço da sistematização do abuso, o diploma torna-se mero adereço sobre uma base de absoluta barbárie. É a ignorância e a estupidez de narizes empinados a ostentar canudos.

A gravidade do episódio reside na frieza do planejamento. O termo “bolão”, comumente associado à celebração esportiva, é aqui sequestrado para nomear uma contabilidade do terror. A violação de corpos femininos vira métrica de competição, revelando um processo de desumanização alarmante. Para esses agressores, a aluna não é uma par intelectual ou futura colega de profissão; é reduzida a um troféu macabro, um objeto a ser “conquistado” através do trauma. É a face mais perversa da misoginia, onde o prazer do agressor advém tanto da violência em si quanto da validação do grupo que o aplaude.

É imperativo questionar que tipo de masculinidade está sendo forjada nos corredores acadêmicos. Este comportamento expõe a sobrevivência de uma “cultura de vestiário” que persiste à luz dos livros, onde o silêncio e a cumplicidade alimentam a sensação de impunidade. Não se trata de um “deslize juvenil” ou de uma “brincadeira de mau gosto”, mas de uma estrutura coordenada que espelha o privilégio de quem acredita que o status universitário o coloca acima da ética e da lei. A inteligência, quando dissociada da alteridade, produz monstros que se escondem sob a capa da erudição.

As facetas desse absurdo alcançam a segurança institucional e o impacto psicológico coletivo. O campus, que deveria ser um território de livre circulação e construção de sonhos, transforma-se em um campo minado para as mulheres. O medo passa a ditar a escolha do horário das aulas, o trajeto para o restaurante universitário e a interação em eventos sociais. Quando a universidade falha em ser um porto seguro, ela falha em sua missão primordial.

A punição rigorosa e o banimento desses indivíduos são medidas urgentes, mas não bastam: é necessária uma faxina cultural que confronte o machismo estrutural que ainda respira livremente entre as supostas elites intelectuais do amanhã. Punir este “bolão” é defender a própria ideia de civilização. Que a resposta das instituições e da justiça seja tão implacável quanto foi a covardia dos mentores desse plano. A sala de aula deve ser um lugar de luz, não o esconderijo para as obscuridades mais baixas da condição humana.