Oscar Bessi

Bela

(conto - ficção policial)




Ela me pediu para matar a amante do amante. Tudo bem. Eu só queria saber mais, principalmente quem me indicou.

“Quem me indicou?”

Ela não respondeu. Insisti.

“Não importa.”

“Como vou saber se não é arapuca? Talvez a senhora seja da polícia. Ou da máfia dos caça-níqueis.”

Ela se ofendeu. Não com o fato de eu sugerir que fosse da polícia, ou da máfia dos caça-níqueis. Foi pelo “senhora”.

Tentei adivinhar a idade da minha nova cliente, certo de que ela não revelaria. É difícil adivinhar a idade das mulheres hoje, parecem todas iguais. As coroas se cuidam, malham, aplicam silicone, botox, lifting, cremes, laser, plásticas, fios de ácido polilático. Outro dia saí com uma que julgava ter, no máximo, quarenta. Errei feio: sessenta e dois. E a adolescente que parecia ter trinta? Quase deu rolo. Sorte que tenho prática em resolver certas coisas.

Sou profissional. Tenho uma reputação. Não mato qualquer um por qualquer motivo. E cobro bem, mas isto não parecia ser problema para a Dona...

“Qual seu nome, mesmo?”

Ela pensou um pouco e sorriu.

“Bela.”

“Hum.”

“Que foi?”

O olhar revelava uma preocupação sincera.

“Achei falso.”

“Por me achar feia?”

“Não. Por achar que não é um nome.”

Ela suspirou.

“Meu nome não te interessa. Vou pagar.”

“Não é bem assim que as coisas funcionam.”

Detesto esse tipo de gente que acha que matar é tipo ir ao banheiro, vai lá, faz, limpa, puxa a descarga e está resolvido. Tenho uma reputação, repito. E não só como matador de aluguel - expressão que, aliás, eu evito: sou um facilitador. É isto. E tenho meus outros negócios. Abri uma fruteira no centro que deixo aos cuidados do meu irmão, um babaca que vive torrando dinheiro com garotinhas, mas não me compromete. Lá vendemos frutas, legumes, sucos, bolachas e o que dá dinheiro de verdade: cocaína, ecstasy e maconha. Crack, não. Crack atrai muita chinelagem. O bom é que a polícia nunca dá batida em fruteiras.

Não sei qual dos meus negócios rende mais, às vezes empatam. Eu nem precisava continuar prestando os serviços que comecei, com meu velho trezoitão, lá nos tempos em que trabalhei numa banca do bicho. Ganhei fama por ser eficiente, prático e bom de mira. Sujeito que mata não pode pensar muito. Valorizei meu passe. Hoje, mantenho este trabalho mais como hobby. Para me divertir e desestressar. Então cobro caro. Que não é fácil viver entre tomates, bananas e playboys arrogantes pedindo pó.

“Quem é ela?”

Bela - aceitei chamá-la assim e lhe disse que meu nome era Fera - me mostrou um maço de impressos, retirados do facebook.

“Essa gorda aí.”

Olhei todas as fotos. Não mudavam muito, todas naquelas poses de meninas em rede social, com celular na mão em frente ao espelho, fazendo biquinho e um vê com o indicador e o dedo médio. Roupas sempre curtas, bem curtas. Era fofinha, ok, mas bem gostosinha. Lady Lu. Teria o quê? Dezoito, dezenove anos?

“Meu namorado está saindo com ela. Botei um detetive atrás deles.”

“Por que o detetive mesmo não faz o serviço?”

“Ele é só detetive.”

Imaginei quem era o lacaio. Detetive, ladrão de carros, golpista e o que aparecesse. Só não mata. Pra matar, tem que ter coragem. Golpistas são covardes por natureza. E deduzi, foi ele quem me indicou. Sempre me indicava. Mas não perguntei.

“Vejo que é casada.”, ela tinha aliança na mão esquerda.

“Meu marido é um idiota. Mas tem dinheiro. Não posso largá-lo agora.”

“E o amante, faz o quê?"

"Namorado."

"Faz o quê?”

“Não importa.”

“Eu digo o que importa. E não perguntei o nome, apenas o que ele faz.”

“É contador”.

Fiquei surpreso. Imagino contadores como sujeitos velhos, taciturnos, ou rapazes sem cor, de óculos, assexuados. Em geral, coroas preferem seu personal trainer. Ou o motorista, o encanador, etc.

Ela me estendeu um envelope.

“Adiantamento. A outra metade eu te pago daqui a dois dias, neste mesmo bar, mesmo horário.”

Contei. Era quase o preço total do que pensei em cobrar. Gostei, Bela. Gostei.

“Tanta pressa?”

“Olhe uma das páginas que te entreguei. Ela vai a uma festa funk hoje à noite. Pela manhã, quero a foto do cadáver no meu whats.”

Anotou o número num guardanapo e me entregou.

Odeio funk. Fui de gorro e óculos, vai que algum carregador de cebolas me vê naquele antro. Preciso manter minha reputação.

Não foi fácil encontrar Lady Lu. Essas meninas parecem todas iguais em suas roupas minúsculas e no desespero de empinar suas nádegas ao relento. Dei sorte, ela foi chamada ao palco, onde dançou, ficou só de calcinha, deixou o grupo de MC enfiarem a mão por todos os seus cantos e simularem um coito, para delírio da massa, e foi dispensada para dar lugar a outras meninas. Comecei a segui-la.

Passava das quatro da manhã quando ela saiu, com mais duas amigas e três rapazes. Levavam latas de cerveja na mão e frascos dessa nova versão de lança-perfume que, dizem, é pior que heroína. Riam. Paravam, se beijavam, trocavam os pares, continuavam no amasso geral, se empurravam e prosseguiam. Quando concluí que estávamos numa rua adequada, escura e silenciosa, me aproximei.

“Lady lu!”

Precisei chamar umas três vezes.

Veio rindo. Os outros nem deram bola e se foram. Perfeito.

Ela encostou os seios fartos no meu peito, cruzou os braços no meu pescoço, alisou meus cabelos e me beijou. Apesar do gosto horrível, um beijo bom. Ela sabia o que fazer com a língua. E tinha um belo rosto. Uns olhos negros brilhantes, mesmo chapada.

“Para.”, empurrei. “Eu sou a tua morte.”

Ela soltou uma gargalhada. Passou a dançar, virou de costas, esfregou a perna na minha calça, se virou outra vez e passou a mão pelo meu corpo. Descobriu o revólver - eu nunca larguei meu trinta e oito, além de me dar sorte, há muitos anos, é a melhor arma para matar e deixar a perícia sem saber quem foi - e gemeu de prazer.

“Eu quero!”, ela disse.

Abracei Lady Lu e a levei para uma rua mais movimentada. Parei um táxi. Ela apagou no carro e subi os quatro lances de escadas do meu prédio com a garota no colo. Deitei-a na minha cama, tirei suas roupas suadas e a cobri com um lençol. Fiquei contemplando seu rosto.

Bela, falei para mim mesmo. Por que faz isso contigo?

Fui para o sofá, acendi um cigarro e fiquei contemplando a noite de paredes cinzas quase coladas à janela do apartamento. Eu, tão acostumado à morte, me peguei de repente perguntando idiotices sobre a vida.

Tentei lembrar se eu tinha pão, leite e frutas para um café no dia seguinte. Nunca sei o que tenho em casa para comer. Não gosto de frutas.

Mandei uma mensagem para a Bela, que não era bela, mas tinha grana. “Lady Lu não foi à festa. Sigo procurando”.

Olhei outra vez a garota. Dormia. Eu podia, pelo menos, ter trazido umas maçãs.

Guardei o .38 no armário.

Tem horas que eu jogo no lixo a minha reputação.