Onze mortes na BR-116, no sul do Rio Grande do Sul, não são apenas mais um número trágico em estatísticas frias. São o resultado visível de uma combinação letal: imprudência individual e omissão estrutural do Estado. Quando essas duas forças se encontram, a conta sempre chega em forma de caixões, entre dores e lágrimas.
Sim, o motorista do caminhão tem responsabilidade direta. A alta velocidade precisa ser rigorosamente apurada e a punição, se confirmada a culpa, deve ser exemplar. Seja de quem dirige ou de quem precisa manter esses caminhões em condições plenas de trafegabilidade segura para lançar nas estradas carregando seus produtos e seus lucros. A lei existe para isso. Ignorar esse ponto seria injusto com as vítimas e perigoso para a sociedade.
Mas seria igualmente desonesto fingir que tudo se resume a um possível erro humano. A BR-116 é uma das rodovias mais importantes do estado, elo quase único entre a Região Metropolitana, o sul gaúcho, o porto de Rio Grande e polos econômicos, culturais e políticos como Pelotas. É artéria vital para a produção, o transporte e a vida.
Ainda assim, a duplicação prometida se arrasta há quase quinze anos, atravessará cinco mandatos presidenciais - agora cuja conclusão voltou a ser empurrada, e para 2027 – de descaso, de pura falta de interesse e respeito pelo nosso povo. Quinze anos! Cinco governos! Mas milhares de acidentes. Quantas mortes cabem nesse intervalo chamado “planejamento”?
Rodovia simples, tráfego pesado, caminhões, ônibus e carros disputando espaço em pista estreita. O resultado é previsível. Não é fatalidade, é escolha política. A demora virou método. A promessa, rotina. O risco, permanente. E a falta de respeito com a vida uma prática infame.
É inaceitável que uma estrada dessa relevância continue sendo um corredor de mortes. A responsabilidade individual deve ser cobrada, sem dúvida. Mas a responsabilidade dos governos brasileiros é inescapável. A má vontade, travestida de burocracia, segue ceifando vidas — e isso não pode mais ser tratado como normal.
