Não é de hoje que sabemos que as redes sociais perderam o pudor. E junto se foram os freios da ética e do respeito. Da credibilidade, faz tempo que mal se ouve falar. O episódio da senhora que, no interior do Rio Grande do Sul, acreditava que Brad Pitt viria encontrá-la - e depois passou a defender a versão de que tudo não passava de uma brincadeira — é mais um retrato cruel de um ambiente onde o ridículo viraliza, a empatia evapora e a humilhação alheia vira entretenimento. O problema não é apenas a ingenuidade ou a contradição da história, o que pode ser real e recorte. Mas a sanha coletiva em apontar o dedo, gravar, compartilhar e rir, como se a dignidade fosse um detalhe dispensável. E cada Brad Pitt que apareceu depois, em brincadeiras até mesmo de empresas, personalidades e entidades oficiais, era o eco de uma gargalhada que lá, na alma daquela senhora, doía muito.
O que deveria provocar reflexão acaba sendo convertido em linchamento digital. Pouco importa se há sofrimento real, fragilidade emocional ou simples confusão: o algoritmo recompensa o escárnio, não o cuidado. O julgamento é sumário, sem direito à defesa, e o tribunal é formado por milhões de pessoas que se sentem autorizadas a opinar, atacar e debochar, protegidas pela distância da tela e pelo anonimato conveniente. Se quando é piada, já machuca alguém, imaginem quando é uma acusação grave. Não podemos esquecer o caso da jovem que foi morta por linchamento após ser confundida com outra pessoa e acusada pela agressão de uma criança. As redes sociais não perdoaram e seus seguidores sem filtro executaram a menina sem piedade.
O mesmo descontrole se repete quando o assunto é política. Após o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, imagens antigas, fora de contexto ou simplesmente falsas passaram a circular como se fossem registros atuais e autênticos. Defensores da ditadura de Maduro ou adoradores dos impulsos tirânicos de Trump usam imagens de um povo nas ruas que talvez não sejam nem desta década. Tudo para corroborar a polarização sem tutano que, infelizmente, este ano talvez volte a falar mais alto, em virtude das eleições. É imagem defendendo lá ou cá sem conferência, fonte ou uma mínima dúvida. Basta confirmar a narrativa que cada grupo já deseja acreditar. A verdade deixa de ser um valor e passa a ser um acessório descartável, moldado conforme a conveniência ideológica. E isso que ninguém podem entrar lá na Venezuela para registrar o que está acontecendo.
Sim, é uma violência. Entre a farsa sentimental e a mentira geopolítica, o fio condutor é o mesmo: a falta de respeito. De limites. Falta limite para expor pessoas, espalhar boatos, fabricar realidades paralelas e para transformar a desinformação em arma na defesa do que se acredita. O raso impera. O imediatismo dá ordens. Enquanto isso, seguimos confundindo liberdade de expressão com irresponsabilidade coletiva. Enquanto sempre há alguém pagando o preço de uma sociedade que compartilha tudo antes de pensar. E, quando pensa, já é tarde demais.
