Oscar Bessi

Brasil não leitor perde em humanização

Pesquisas recentes apontam o quadro deprimente da leitura no Brasil. Nunca foi animador, mas agora parece cada vez pior. Lamentável num país que precisa enfrentar sua própria violência.

Triste constatação. Encerramos a Feira do Livro de Porto Alegre e, o mais provável, é que a mera lembrança sobre a existência de bons livros desapareça do imaginário coletivo da nossa gente. Pesquisa recente mostrou que o número de brasileiros não leitores superou, pela primeira vez, o de leitores. E não foi por pouca coisa: 53%.

Há quatro anos, pesquisa havia mostrado que o país perdera quase 5 milhões de leitores. Agora, aumenta para 7 milhões de brasileiros a menos com o hábito da leitura. Lamentável. A cada três dias, uma livraria fecha as portas no Brasil. Sem falar na qualidade do produto livro, este aspecto então prefiro nem abordar. É subjetivo e há quem diga que certos malucos das redes sociais e seus festivais de besteirol podem ser chamados de escritores. Enfim, mercado é mercado. Há que se lidar com ele. Para isto, a melhor defesa é o cérebro.

Mas sem leitura, que cérebro estará em condições de discernir?

Sempre digo aos meus alunos e nas palestras que faço: o livro é a academia do cérebro. Quem lê, e lêm com orientação, lê bem, tem um cérebro “marombado”, poderoso, disposto e atento a tudo. Quem não lê, tem um cérebro sedentário, preguiçoso, sem energia, fácil de enganar. Assim como o cérebro mal orientado, que lê sem critério, que acredita em fakenews sem pesquisar, é como o sujeito que vai à academia sem orientação de um professor ou personal – vai ficar todo atrofiado, dolorido e doente. É como se automedicar sem orientação médica. Dá problema.

Na Colômbia, um grande exemplo de enfrentamento à violência foi a construção das gigantescas bibliotecas parque. O livro, a leitura, são capazes de operar milagres. O principal deles é o imenso poder de humanização que a leitura proporciona. Sentir. Colocar-se no lugar do outro. Respeitar. Respirar fundo. Entender a sua própria humanidade e a de quem te cerca. Enfrentar culturas nocivas, preconceituosas e intolerantes. Exercitar a paz como algo possível dentro do nosso comportamento individual e coletivo.

O Brasil sobre com sua própria violência. O Brasil é um país com medo, com banalização do crime, com mortes demais todos os dias. Nas estradas, nas comunidades, nos lares. Morrem crianças, jovens e mulheres demais. Morre povo demais. É uma pena que a leitura, que seria uma das ferramentas essenciais na reversão deste quadro, esteja sendo deixada tão de lado no país.

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