Oscar Bessi

Brutalidade e descaso

Tragédias como esta revelam que o nosso discurso coletivo de prioridade à infância é, muitas vezes, uma ficção burocrática e conveniente

Ainda há quem confunda educação com brutalidade, mesmo que léguas separem uma atitude da outra. O que cabe na mente de uma criança de apenas 3 anos, ao amanhecer? Por óbvia incapacidade biológica e psicológica, com certeza, não cabe a obrigação de responder a uma etiqueta social rígida, ainda mais sob a ameaça de uma sentença de morte. O menino covardemente espancado até a morte em Viamão, apenas por não ter respondido a uma saudação matinal exigida pelo pai, choca não apenas pela futilidade macabra da motivação, mas pelo requinte de crueldade que transformou o lar em um cadafalso. Sob o disfarce de uma retórica moralista, o agressor camuflava o sadismo sob a estapafúrdia justificativa de disciplina, destilando uma violência que rompe qualquer limite da sanidade humana. E que reduz a existência de um filho a um objeto de posse e controle absoluto.

A admissão pública do prefeito local de que o Estado falhou carrega uma honestidade tardia e dolorosa, mas abre uma ferida metodológica que não pode ser ignorada. Como explicar que, em uma mesma cidade, a rede de proteção tenha sido acionada por sete vezes sem conseguir interceptar o rastro de sangue? A tragédia não brotou do nada; ela foi construída sob os olhos burocráticos de um sistema que deu de ombros ou apenas carimbou papéis enquanto o perigo avançava. Faltou conhecimento técnico para ler os sinais de socorro? Faltou interesse? Faltou estrutura ou sobrou um terrível despreparo para lidar com a perversidade disfarçada de santidade? Quando os mecanismos criados para salvar vidas operam como meros espectadores estatísticos, a negligência institucional se torna cúmplice da barbárie.

O rastro desse horror se torna ainda mais intolerável quando se descobre que o histórico de violência já havia cruzado fronteiras estaduais, acumulando denúncias, passagens e até episódios de internação das crianças em abrigos em outros pontos do mapa. O assassino e sua família mudavam de endereço e, a cada nova paragem, o contador do risco parecia zerar para as autoridades locais, como se o passado de maus-tratos ficasse retido nas barreiras geográficas.

Tragédias como esta revelam que o nosso discurso coletivo de prioridade absoluta à infância é, muitas vezes, uma ficção burocrática e conveniente. A verdade é que toleramos o perigo até que ele vire estatística, blindando-nos atrás da falsa premissa de que a intimidade familiar é sagrada demais para intervenções drásticas.

E, se não faltou estrutura, preparo ou interesse por este anjo que nos deixou, o que faltou foi um mínimo de humanidade. E não só do assassino.