Oscar Bessi

Café batido

Sou um fã do café. Muito fã. E de muito café. Tenho que controlar este meu gosto, pois há quesitos de saúde a serem observados. Mas preciso de um café. Principalmente para escrever, algo que gosto de fazer em períodos do dia em que o silêncio ainda é maioria absoluta no universo ao meu redor. Dia desses, antes do Sol nascer, eu me preparava para pensar a coluna do dia seguinte e fui fazer o meu café. Então lembrei da minmha falecida avó, Dona Licea, mãe de minha mãe. E do café batido que ela adorava fazer pra gente.

Era um café preto, simples, caseiro. De vó. Ela punha na xícara uma ou duas colheres de café (eu sempre pedia duas), a dose de açúcar e uns pingos d’água fria. E ali iniciava um ritual com a colher de mexer com força e paciência até virar uma pasta. Eu ficava observando e pensava comigo que o café se chamava batido porque a colher ficava batendo na xícara, e eu adorava aquele barulhinho. Então, gradativamente, ela colocava mais gotas de água, agora quente, e continuava a mexer. Até que, lá pelas tantas, num ponto que só ela sabia, e até me explicou várias vezes, mas eu nunca consegui ter a mesma sensibilidade de achar, ela completava com a água quente final e alcançava aquela xícara fumegante. Que qualquer um juraria ser de capuccino.

Ninguém mais fazia café batido que nem ela. Preto. Simples. Da vó. Os anos foram passando e eu servia na zona norte de Porto Alegre, ou em Alvorada, enfrentava dois ou três ônibus lotados em viagens de duas horas ou mais e ia para a casa dela, no Morro da Glória, pegar o Gê, meu filho do meio, que passava o dia lá enquanto eu trabalhava. Ela sempre me esperava com um café batido engatilhado. Eu me deliciava e a gente conversava sobre a vida, a hora que fosse. Eu chegava à noite e ela e o Gê estavam ouvindo Roberto Carlos e dançando. Depois, eu levava meu filho na “cacunda”, as mochilas todas nos braços e costas e descia o morro a pé até chegar em casa. A vida era difícil e boa. Minha vó escrevia poemas num caderno: ela se foi e não consegui ler todos. O Gê, então com três anos, dizia que a vó tinha virado estrelinha no céu. E olhou o céu, por muito tempo, mostrando qual ela era.

Pois fiz café batido. O meu não teve cara de capuccino, teve cara de café preto mesmo. Mas valeu por matar a saudade da vó. Vou fazer mais cafés batidos. Um dia, quem sabe, encontro o ponto do café, e da poesia,
com a sensibilidade que ela me ensinou.