
Caixa de bombons
Coluna dominical, 07/07/16
Não restará, ao menos, um olhar. Só lembranças. É a certeza que se leva desta vida efêmera, por onde passamos feito sopro. Somos nadas perdidos na contagem implacável do tempo. Menino, quando minha avó passou a morar na casa de meus pais, o meu grande mistério era saber o que havia dentro do seu baú azul celeste. E não adiantava tentar descobrir sozinho: onde ia, ela levava a chave consigo, a salvo de netos "enxeridos". Até que um belo dia me chamou para mostrar seu tesouro: nada das moedas de ouro, ou adagas de batalhas épicas, que eu imaginava. Apenas poucas cartas e fotografias amareladas, rosários, um livreto com músicas do Teixeirinha (que ela ficou muito braba por eu não saber cantá-las) e uma caixa de bombons. Muito velha. Hoje, tanto tempo depois de sua partida, ao relembrar aqueles chocolates que ela ganhara de um alguém, num tempo indefinido, me vem à mente aquela frase de Drummond sobre infância e velhice, as fases da vida onde a felicidade se resume a uma caixa de bombons. Às pequenas coisas. Mínimos carinhos.
Então a dor é mais aguda, quando a violência os atinge. Idosos e crianças. A natural fragilidade cíclica, do corpo e da alma humana, torna o massacre diário a que são submetidos ainda mais hediondo, covarde e cruel. Triste ver o mapa da violência no Brasil, onde os crimes desta natureza crescem a cada ano. Os idosos só perdem para crianças e adolescentes no número de vítimas das denúncias recebidas pelo disque 100. E há outro tanto, pavoroso, de casos não ditos. A grande maioria desses crimes ocorre dentro de casa e os agressores, pasmem, são os próprios filhos. E eles não têm, como as crianças, a possibilidade do ambiente de escola, ou do Conselho Tutelar, para que com eles se importem. O idoso conta com quase ninguém para defendê-lo, numa estrutura de proteção que, na prática, é pífia ou inexiste na maioria dos lugares por aí.
Violência psicológica, física, abuso financeiro e econômico e a campeã dos crimes: negligência. Quando uma enfermeira me surpreendeu levando, no colo, meu pai ao banheiro, na internação hospitalar de onde não mais voltou, ela me confessou que sua surpresa era por ser a impaciência, dos filhos, a cena que mais via por ali. A intolerância de quem esquece que daqui a pouco (mais rápido do que imagina) estará na mesma situação. Se tiver sorte. Porque somos todos iguais, ao nascer, e chegamos iguais ao final da estrada. Sob as mesmas carências e dificuldades. Pena sermos assim, tão intolerantes. E com tão pouca capacidade de levar conosco para oferecer, a qualquer hora, o tempo todo, o que de mais belo nossa racionalidade criou: uma caixa de bombons. Recheados de carinho.

