Oscar Bessi

Charqueadas

Haverá natal em Charqueadas. Porque haverá natal em todos os lugares. Só que lá, na cidade onde seis mil pessoas perderam o emprego em função do maior escândalo de corrupção da história brasileira, qualquer confraternização traz consigo tristeza. Apreensão. Dor. E um sentimento profundo e compreensível de raiva, muita raiva, pelo que aconteceu.
A diretoria da empresa envolvida no escândalo, foi presa. Presa mesmo? Ou apenas está num confortável retiro, enquanto os muito bem pagos advogados costuram sua impunidade anunciada? O famoso Pólo Naval acabou em tragédia. Lojas quebrando com créditos a receber, trabalhadores sem salário às vésperas do final de ano - quando todas as contas dobram e governos, mesmo os mais corruptos, nunca perdoam ou suspendem a cobrança de impostos -, famílias em desespero. Tudo numa região já com dificuldades históricas, péssimo IDH e o carma negativo de ter consigo tantos presídios. Pois, quando veio a esperança, tudo vira uma licitação fraudulenta de um bilhão de reais, uma empreiteira corrupta, um bando de beneficiados muito bem refestelados na fortuna pública e o povão... Ah, o pobre povão “que se exploda!”, eles dizem entre si.
Penso nas crianças de Charqueadas. Nas crianças filhas dos seis mil operários de Charqueadas. Nas noites em que eles terão que evitar as estrelas, pois não poderão sonhar com Papai Noel. Poderão sequer escrever uma cartinha ao bom velhinho, pois não haverá alma bondosa suficiente para atendê-las. Como será triste o natal das crianças de Charqueadas. As crianças vítimas de uma violência brutal: a violência da corrupção que infesta o país desde o seu falso descobrimento. Elas, as crianças de Charqueadas, não participaram de fraudes e farras bilionárias, não ganharam um pirulito a mais nas suas merendas escolares, talvez nem entendam direito o desespero e a tristeza dos seus pais. Elas gostariam apenas de viver uma noite feliz, de abraços, sorrisos e alguns presentes sob a árvore de luzes coloridas. Gostariam de rezar para o menino da manjedoura com um suspiro bom que viesse da alma. Mas talvez nem luz tenha na casa das crianças de Charqueadas, que a companhia elétrica não quer saber, corta mesmo a energia de quem não paga a conta. Vítimas do petrolão? Problema deles.
Mas sou capaz de apostar: não faltará luz, nem presentes, aos bandidos que metralharam tristezas entre essas pobres crianças. Carnes secam tristezas ao sol, em Charqueadas. E os abutres estão mais gordos.