Oscar Bessi

Churrasco estragado

Foto: apreensão de carnes cortadas após prática de abigeato. Criminosos foram presos em flagrante pela BM (27º BPM).

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Sou um porto-alegrense radicado no interior. Depois de trabalhar por muito tempo na região metropolitana, voltei aos lugares onde passei a infância. Ao amanhecer mais aberto do campo, ao som do coro dos pássaros, onde amizade não exige adubos químicos. Dia desses, uma amiga e leitora do Correio do Povo (é fácil ser amigo dos nossos leitores aqui no interior), me ligou aos prantos. Tinham carneado, na madrugada, sua única vaquinha de leite. Pode parecer pouco, para quem só olha números e estatísticas. Mas a vida da minha amiga sofreu uma reviravolta traumática. E assim, outros relatos, de outros amigos, que ao amanhecer topavam com as carcaças de seus bichos entre poças de sangue. Os alvos, aqui, são pequenos produtores, gente que lida com agricultura familiar.

Em ações de rotina da Brigada Militar, com patrulhas rurais, e noutras em conjunto com a Polícia Civil, conseguimos prender alguns autores desses crimes. Triste de ver: carnes acondicionadas sem qualquer higiene, instrumentos de carneação e corte enferrujados ou sujos, sangue apodrecido, muita sujeira. E eles atuam nas madrugadas, vêm de longe (dois grupos que pegamos saíam do Vale dos Sinos para roubar no Vale do Caí) e têm encomendas certas. Porque a carne é cara, sabemos. Mas não abandonamos o gosto por um churrasquinho bagual com os amigos, ou um belo bife com fritas. Aí, entra em cena a ganância do lucro, a falta de escrúpulo, o caráter corrupto de certos comerciantes que, insisto, não diferem nada dos traficantes de drogas. Vender produto roubado, sem inspeção sanitária ou adulterado é dar, ao seu semelhante, comida estragada, sem sentir qualquer peso na consciência. Num país consumista, de custo de vida alto e impostos diversos e de educação revirada, todo roubo é um bom negócio. E normal.

Esta semana, a Brigada Militar direcionou a Operação Avante, que vem colhendo resultados maravilhosos no enfrentamento ao crime e à violência, no combate ao abigeato. Um drama que impacta no desempenho econômico dos grandes produtores, pilares pujantes e históricos da economia gaúcha. E dilacera o coração dos pequenos, como a minha querida amiga de Montenegro. Difícil de combater, pelo tanto de estradas e campos que temos, mas possível sim, se os homens do campo se somarem nesta cruzada e multiplicarem os olhos da polícia, avisando qualquer movimentação suspeita nas madrugadas. Os reflexos deste crime vão até aos gastos da saúde pública, pois quem consome é certo que ficará doente. O crime de receptação é o cérebro do abigeato. Está na hora de pleitearmos dos legisladores uma punição bem mais severa para quem recebe e comercializa estas carnes também. Estão conseguindo estragar nosso churrasco gaúcho pela falta de caráter de uns e outros.