Não faz muitos dias, o filho do vice-presidente dos Estados Unidos foi dispensado pela Marinha. O motivo, revelado pela imprensa de lá, foi uso de cocaína. O sujeito fez um teste, que é realizado de forma periódica no integrantes da corporação, e deu positivo. Foi dispensado. Mesmo sendo filho de quem é. Envergonhado, ele admitiu o erro, salientou a honra da Marinha Americana e o orgulho de ter servido nela, pediu desculpas pelo que fez e diz que conta com a ajuda da família para seguir adiante e superar o fato. Bonito. Um gesto que revelou caráter ao reconhecer o erro e valorizar as regras da instituição que tomou providências ao saber do fato. E achei ainda mais bonito a Casa Branca não interferir no assunto, deixando liberdade de ação para a Marinha tomar as providências que julgasse cabíveis, mesmo sendo o moço filho de quem é.
Um leitor me provoca: vamos fazer de conta que o fato aconteceu aqui, no Brasil. O que aconteceria?
- É mentira! Nunca usei uma coisa dessas! Absurdo! Fui enxertado! - diria o viciado e filhinho de papai, irritadíssimo.
- Factóide! Manipulação política! - bradariam os aliados (do papai, não do filhinho exatamente).
- Estes testes não são confiáveis. - alegaria algum especialista, amigo do Poder, de pernas cruzadas e óculos na ponta do nariz no programa que jura ter a maior audiência oficial, frente às câmeras.
- Abuso de poder clássico. - comentaria o sociólogo.
- O método de coleta da prova foi ilegal. O rapaz foi coagido, forçado, ele nem queria fazer teste nenhum. - informaria em coletiva o advogado da família, especialista acostumado a ver tudo sob uma outra lógica.
- Vamos processar o oficial responsável pelo teste. - afirmaria, categórico, dias depois o pai do dito cujo.
- Estamos estudando no Congresso o fim da Marinha. - avisaria o líder da situação - É um absurdo o que esta instituição promove contra o nosso povo e nossos melhores cidadãos!
- Desmilitarização da Marinha já! - gritaria um manifestante. E quebraria a vidraça da loja mais próxima para levar a tevê.
- Liberar a maconha! E a cocaína! - gritaria outro manifestante, levando outra tevê e um secador de cabelos.
E, no final das contas, após usar drogas, mentir em público e ser acobertado pelo sistema, o sujeito seria tratado como herói na grande mídia. Escalado para algum reality show. Viraria livro. Filme. E talvez até fosse eleito deputado nas próximas eleições.
