Oscar Bessi

Coronel Cleide: a histórica lição de Minas Gerais

Pela primeira vez na trajetória da força de segurança pública mais antiga do país, com mais de um quarto de milênio de existência, uma mulher assumiu o posto máximo da corporação. Uma mulher negra, de origem humilde.

Os aplausos emocionados ecoaram mundo afora. Quando a coronel Cleide Barcelos dos Reis Rodrigues assumiu o comando-geral da Polícia Militar de Minas Gerais, esta semana, a história foi escrita: pela primeira vez na trajetória da força de segurança pública mais antiga do país, com mais de um quarto de milênio de existência, uma mulher assumia o posto máximo da corporação. Uma mulher negra, de origem humilde.

Em um Brasil onde a herança colonial teima em se fazer presente, ver a vitória da filha de Dona Maria Geralda fez as lágrimas de orgulho dessa mãe surgirem em milhares de outros rostos. Em quase três décadas de serviço, a coronel forjou sua liderança combatendo a violência doméstica e protegendo os vulneráveis. Sua chegada ao topo da hierarquia é um manifesto vivo de que o destino das minorias não precisa estar confinado aos rodapés sociais.

A carga simbólica dessa posse rasga um horizonte de dores estatísticas que diversos segmentos do país ainda tentam mascarar. Historicamente, as mulheres negras no Brasil carregam o peso desproporcional de serem as maiores vítimas da violência, do feminicídio e da vulnerabilidade social — um descaso estrutural que se perpetua desde as senzalas até as periferias modernas. Os relatórios de direitos humanos desenham, anualmente, um mapa trágico de desigualdade. Por isso, a ascensão da coronel Cleide não é apenas uma merecida vitória meritocrática e individual. É uma resposta política, quiçá poética, a séculos de opressão: quem historicamente esteve na mira do perigo converte-se, agora, na autoridade máxima encarregada de desenhar as estratégias de proteção para todo o seu povo.

Não foi uma trajetória fácil. A mãe, Dona Maria Geralda, foi proibida de estudar no passado pelo simples fato de ser pobre, mulher e negra. Mas viu a filha entregar-se aos estudos, ser aprovada no concurso da PM ainda muito jovem e especializar-se em Direitos Militares e na gestão do acolhimento a vítimas. A coronel transformou a dor alheia em missão de vida, pavimentando com resiliência um caminho que culminou na aclamação de sua liderança. O feito histórico não passou despercebido: movimentos sociais e frentes de direitos humanos celebraram a escolha, apontando que sua presença sinaliza a esperança e a humanização necessárias para aproximar as forças de segurança da comunidade.

Ao chancelar essa nomeação, Minas Gerais não apenas honrou seu passado de vanguarda, mas projetou um futuro mais justo. O gesto mineiro serve como farol ético e imperativo de modernização para as demais instituições de segurança pública do país, muitas delas ainda presas a valores carentes de uma maior reciclagem. Que a gestão da coronel Cleide seja o espelho onde o Brasil aprenda a enxergar a segurança não como opressão, mas como acolhimento e justiça social. Afinal, o topo do comando da força policial passou a ter a cara, e a cor, do povo que mais precisa dela.

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