Oscar Bessi

Correio do Povo: a crônica policial de 1895

A histórica primeira edição do Correio, de 1º de outubro de 1895, já trazia esta seção que desperta o imaginário do povo: a crônica policial. Desastre com bonde da Carris, prisão de indivíduos, até suicídio. Nascia, há 130 anos, este jeito de contar com equilíbrio, verdade e, acima de tudo, muito respeito ao leitor, tudo o que acontece de bom e de ruim neste nosso mundo humano.

Correio do Povo de 1º de outubro de 1895.
Correio do Povo de 1º de outubro de 1895.

Está de aniversário, o nosso querido Correio do Povo. 130 anos! O mais antigo, o mais tradicional, o maior. Tenho muito orgulho de, nos últimos 15 anos e meio, fazer parte desta história como cronista da página policial. E novelista: em 2015 criamos um folhetim, no blog, com meu “detetive Leão”, um investigador particular, envolto em mistérios nas praias gaúchas. Teve um leitor que, empolgado, baixou todo o conteúdo e me enviou o e-book totalmente editado e formatado como presente.

A histórica primeira edição do Correio, de 1º de outubro de 1895, cuja capa tenho com orgulho reproduzida em uma caderneta de anotações – que, de tão valiosa, nem anoto nada para não macular e guardo, como um quadro valioso, exposta em minha biblioteca pessoal – já trazia esta seção que desperta a curiosidade e o imaginário do povo: a crônica policial. A edição inteira está disponível no site do CP para que os leitores acessem clicando aqui.

Lá, é possível ler as breves notas, nas páginas 02 e 03 das quatro que compunham aquela ousada edição inaugural, sobre o “desastre com o Bonde nº 17 da Cia Carris”, pela manhã, na linha Duque de Caxias. Também a notícia da prisão de dois indivíduos por ordem do então chefe de polícia. Um inquérito relativo a um assassinato cometido e a remessa do inquérito feito pelo subdelegado capitão Travassos sobre as ofensas que “um grupo de vagabundos” fez a dois condutores de bonde.

Além das diferenças muito interessantes que podemos ver na própria língua portuguesa da época, o modo de se abordar certos temas delicados chama a atenção. Outros tempos. Um suicídio, por exemplo, é narrado de forma natural e sem grandes pudores, eis que na época não se tinham os cuidados e as regras éticas de preservação sobre estes casos, que hoje nos regem.

Enfim, 130 anos depois, os tempos mudaram. Muito. Em 1895, nem televisão existia e sequer se sonhava que um dia haveria algo assim. Hoje vivemos a era da tecnologia e da velocidade. As cidades gaúchas mudaram. A sociedade, os comportamentos, as notícias e as formas de noticiá-las. Os grupos políticos mudaram, mas os humanos cometendo ou impulsionando violências em nome de seus fanatismos.

Os crimes também mudaram, desde aquele iniciar de outubro de 1895. O que não mudou foi o sonho humano de paz em contraponto com esta triste capacidade, tão nossa, de sermos surpreendidos com o inimaginável, o inaceitável e o incompreensível praticado pelos nossos semelhantes. E esta necessidade tão nossa de sabermos a verdade, por todos os seus ângulos, sobre tudo que de relevante aconteceu, mesmo que nos cause dor, até para debater e refletir sobre ela.

Nestes 130 anos, o Correio do Povo segue firme nesta missão: contar com equilíbrio, verdade e, acima de tudo, muito respeito ao leitor, tudo o que acontece de bom e de ruim neste nosso mundo humano. Pois tão presente quanto a curiosidade natural que temos de saber mais sobre tudo, está esse nosso desejo de respirar fundo e acreditar em dias melhores. Só o equilíbrio e o jornalismo responsável nos garantem isto. Feliz aniversário, Correio!