Oscar Bessi

Crianças

 

Elas dão aula. As crianças. E quem tem capacidade de ensiná-las, ou de encantá-las, é um ser humano privilegiado. Sempre fui um grande admirador dos professores por isto. E de escritores que assinam livros infantis (falo de livros, não daquelas malfadadas maletas enganadoras e sem autoria). Pela capacidade de fazer crianças brilhar de verdade em seu mundo mágico. Porque é este o mundo delas: a magia. E quando fui convidado, dia desses, para um trabalho de literatura numa Escola de Educação Infantil - que os mais antigos, feito eu, ainda chamam apenas de “creche” -, confesso que quase dei um jeito de escapulir. Por medo. Não me sinto capaz de encantar. Não as crianças, que precisam de tanta verdade boa. E trago comigo umas verdades duras, absorvidas pela vida, não queria levar isto para elas. Nem precisou.

Entre surpresas e emoções - entre elas a presença da minha mãe, que deu até receita das torradas sem torradeira da minha infância -, vi os milagres que professores conseguem com seus pequenos. Eu nem sabia que era capaz de escrever algo a ser trabalhado com crianças de tenra idade. Mas estavam lá o “pardal abusado”, a “torrada de chaleira” e o “café batido” (com profe especialista no assunto que fez ao vivo e tive o prazer de saborear!). Crônicas que publiquei para adultos, sem pensar que um dia tocariam aqueles corações tão puros. E a escola trabalhou não apenas com os alunos, mas com os pais. Foi incrível ver que, em casa, pelo seu filho, os adultos leram, refletiram e escreveram sobre proteção, carinho e amor. Tudo vindo das crônicas, de onde nem eu sabia que estava.

Há esses professores maravilhosos que conheço, os que levam a literatura para a vida da criançada. Foi um momento redentor, de lágrima e emoção. Chorei com as interpretações, com os abraços e beijos gratuitos que ganhei, espontâneos, naquele amor despido de conceitos que só as crianças sabem ter. E que nós, erroneamente, chamamos de ingenuidade. Mas é sabedoria. Nós, adultos, é que criamos a maldade. E não pude conter lágrimas ao lembrar histórias horríveis que minha mulher viveu em seus sete anos de Conselho Tutelar. E pensei que talvez, ali, alguém também tivesse uma vida dura. Mas naquele momento, graças às professoras, podiam viver sua magia plena e sem medo, como deve ser o mundo de uma criança. Quantas outras chances de sonhar, sorrir, amar e se sentir iguais terão na vida, depois que crescerem? Só Deus sabe. Cada um terá seu destino. Então vi a profe emocionada, em lágrimas. Sim, chore, porque tuas lágrimas valem ouro: por mais que a vida se torne injusta, um dia, tenho certeza que estes momentos jamais sairão dos corações de teus alunos.