Oscar Bessi

Crime brutal e inexplicável

Cada família vive uma realidade única. E cada casa, cada lar, pode ser um baú repleto de incríveis segredos. Muitas vezes, tenebrosos. Pode ser um cais de amor e proteção, mas também pode ser um arcabouço de dificuldades, doenças físicas ou mentais, surpresas e conflitos.

Toda vez que um crime brutal nos surpreende, buscamos logo alguma explicação. Necessitamos, depois de atropelados repentinamente pela avalanche de uma realidade violenta e cruel, dessa onda contrária de certezas palpáveis, que digam qualquer coisa, enquanto tentamos recolocar os pés no chão. E nos ajude a tentar entender o que aconteceu. É preciso encontrar um argumento mínimo que justifique o injustificável, feito uma ilha de coerência e humanidade em meio às ondas gigantes da irracionalidade dos fatos. Mas nem sempre é possível. Há momentos em que a lógica simplesmente não acontece. Como o caso do menino de 14 anos que, no Rio de Janeiro, esta semana, matou os pais e o irmãozinho pequeno que faria seu quarto aniversário dentro de alguns dias. Explicar? Não tem como.

Nós, policiais, de tanto nos depararmos com situações que, aos outros, pareceriam inacreditáveis, sabemos que cada família vive uma realidade única. E cada casa, cada lar, pode ser um baú repleto de incríveis segredos. Muitas vezes, tenebrosos. Pode ser um cais de amor e proteção, mas também pode ser um arcabouço de dificuldades, doenças físicas ou mentais, surpresas e conflitos. Uma belíssima casa pode ser o envólucro de intrigas, mentiras e traições. Ódio e violência. Abusos. Este tipo de realidade não tem esterótipo. Tudo pode ser possível em qualquer lugar. Claro que há cenários que favorecem. Este crime, no Rio, surpreende pelos detalhes. Um menino que começa um relacionamento afetivo à distância, dentro de um jogo virtual, com apenas oito anos de idade. Três assassinatos planejados de forma fria e brutal por um menino, segundo vizinhos e familiares, criado com muito amor. A motivação tola: não aceitação, até natural e compreensível, dos pais à pretensão do adolescente de ir a outro estado encontrar uma namorada desconhecida. A pesquisa que ele fez na internet sobre como sacar o FGTS de um morto e sua frieza ao dizer que, se voltasse no tempo, faria tudo outra vez. A.

Qualquer teoria sobre esse triste e doloroso caso, agora, será apressada. A investigação policial ainda trará novas revelações. E, creio, uma grave psicopatia será diagnosticada neste adolescente. Essas doenças nem sempre nascem de situações traumáticas, podem ser genéticas ou até decorrentes de alterações cerebrais. Alguém culpará a internet e seus jogos virtuais, mas milhares de jovens jogam esses jogos todo dia sem sair por aí matando pais e amigos. Outros culparão o fato do pai ter arma em casa, feito o caso recente da criança que pegou uma arma, deixada sobre a mesa, e matou a mãe (neste, porém, a falta de cuidado dos adultos com a arma ficou bem claro). E muitas perguntas surgirão. Como era o real relacionamento dos pais com este garoto? Como era o “namoro” virtual iniciado aos oito anos? Nunca houve nenhuma situação, com este garoto, que sugerisse um comportamento anormal e pedisse ajuda clínica? Enfim, resta-nos mais uma família destruída por um crime brutal. Ou pelo que deveria até ser amor, apesar dos pesares. Só que, se algo desperta gestos de ódio, seja por parte de quem for, consciente ou não, então nunca foi amor.

Mais Lidas