Oscar Bessi

Crimes imprevisíveis

A mente humana é um baú repleto de segredos e surpresas. E mesmo que a racionalidade, ou a educação, ou a civilidade entrem em cena na tentativa de mediar os conflitos que emergem destes baús quando se abrem, soprando furacões de amor ou ódio, há o costumeiro imprevisível. Tragédias como esta que aconteceu em Cruz Alta e vitimou uma família inteira não são passíveis de prevenção. Não pela segurança pública. Talvez uma terapia, uma ajuda psicológica, até tivesse evitado o mal maior - mas quantos a procuram? Quantos casais brigam e seguem convivendo no limiar do insuportável? O que provoca a faísca que acende o rastilho deste vulcão, a ponto de nos transformar em monstros?


Um casal, com problemas de relacionamento, e o filho, que nada tinha a ver com isto. O pai matou o menino, atirou contra a mãe e se matou. Há uma corrente de energias em várias frentes em prol da vida da mulher, que é soldado da Brigada Militar e segue em estado gravíssimo. Ironia: tudo aconteceu com sua arma, a arma comprada pelo estado para que ela defendesse a si, aos seus e toda uma sociedade. Tomara, tomara mesmo, que ela saia dessa e consiga recomeçar. Há outros dois filhos à sua espera. Pequenos. Certamente traumatizados para sempre.


Comum? Pode ser. Não foi o primeiro, e infelizmente não será o último, crime desta natureza a chocar toda uma coletividade. As histórias se repetem, passionais ou não. Sequer temos memória suficiente para lembrar quantos crimes brutais, inexplicáveis, aconteceram dentro dos lares ao nosso redor. Mas sempre choca. Sempre marca. E nos faz pensar, e nos leva à compaixão acima de tudo quando crianças surgem como vítimas do acesso de loucura de algum adulto.


E a loucura faz parte da nossa vida. Da nossa estrada. Ela se manifesta em muitos momentos, talvez invisível aos olhos dos outros em uns, violenta e explícita noutros. Agora, temos que confessar, é difícil. Não compreendo a insanidade que leva alguém a matar um filho. Nunca compreenderei. Por mais que se saiba o quanto somos imprevisíveis, por sermos humanos, eis um absurdo que não alcanço. Mesmo matar alguém, tirar uma vida, definitivamente e sem qualquer chance de desfazer esta violência extrema, não me parece justificável sob qualquer aspecto. Mas um filho. Não, eu não consigo entender.


Enfim. Este é o ser humano. Ele inventa novas formas de matar, ele mata, e mata por nada. Inclusive quem ele ama. Na estatística fria, apenas homicídios. Na vida, árida e palpável, tragédias irreversíveis.