Ler as notícias policiais no Correio do Povo de hoje nos pede uma série de reflexões. Porto Alegre cidade acordou com mais um daqueles silêncios pesados que só a violência explica. Um homem foi morto com dez tiros de pistola 9mm na zona norte. Na zona sul, um músico caiu morto no meio de um show de pagode, atingido por quinze disparos. Tocava, sorria, cumpria o ritual da noite, até que a música foi cortada pelo som seco dos tiros. Pavor geral. Ambos tinham antecedentes criminais e já haviam sido alvos, mas talvez isto não explique tudo. A execução pública não pode ser um recado.
Chama a atenção o calibre. Não é mais o revólver antigo, improvisado, de ocasião. É arma de guerra urbana. Pistola de uso restrito, munição em quantidade, precisão. Não são crimes passionais, nem brigas de esquina. São execuções. Mensagens enviadas à luz dos refletores, para que todos vejam, ouçam e entendam. A pergunta surge sem pedir licença: estamos assistindo à volta declarada da guerra entre facções na capital?
Enquanto isso, polícia apreende fuzis, metralhadoras e pistolas em ações cirúrgicas como na Bom Jesus, em POA. E desbarata um grupo criminoso responsável por lavar cerca de dez milhões de reais do tráfico de drogas. Dinheiro sujo, armas potentes, homicídios, terror. O crime “organizado”, quando perde terreno, reage. E reage com violência, exibindo poder para manter o medo em circulação.
É verdade que feminicídios e maus-tratos aos animais continuam sangrando a consciência coletiva. E os homicídios no estado, em especial os ligados ao tráfico de drogas, haviam recuado. Ao menos nos números. Havia uma sensação perene e esperançosa de trégua, de alguma paz urbana. Agora, os tiros voltam a ecoar em diferentes pontos do mapa, como se a capital estivesse novamente dividida em territórios invisíveis, porém letais.
Resta saber se aprendemos algo com o passado recente. Se a resposta pública será firme, contínua e inteligente, ou apenas reativa. Se nossas consciências, enquanto cidadãos, saberão refletir sobre o quanto, mesmo em pequenos atos ou costumes, alimentamos tudo este circo de mortes e sangue. Porque quando a violência se organiza, ela não pede licença para voltar. Ela simplesmente volta. E cobra caro. Da polícia, do Estado e, principalmente, da cidadão que tenta, dia após dia, tocar sua vida entre uma manchete e outra permeada de medo.
