Oscar Bessi

Crueldade, hipocrisia e barbárie

Perdoem-me, mas não há como não sentir algo diferente que não uma revolta imensa pelo que aconteceu. Três vidas ceifadas. De três jovens. Três inocentes. Por motivos muito mais do que torpes.

Esteio, julho de 2025. Dois jovens e um bebê de apenas dois meses são brutalmente assassinados e o caso choca a todos que tenham, pelo menos, algum resquício de humanidade consigo. Um crime frio, calculado, covarde. Repleto de horrores em suas causas e, mais ainda, nas consequências. Uma das vítimas era uma mulher que mal teve tempo de começar a sua vida adulta. Tombou pelo simples erro de se deixar iludir pela lábia cheia de segundas intenções de um sujeito, cujo caráter era tão sórdido quanto a falsidade de sua liderança religiosa. E não culpem as religiões por isto. É do ser humano ter fé e procurar um cais para suas angústias, esperanças e incertezas. O que não deveria ser de nenhum ser humano é esta prática abjeta de se valer da fé alheia para enganar. Ou, pior ainda, seduzir. Uma menina, no auge de sua adolescência, ainda não tem o discernimento, ou a visão de mundo suficiente para distinguir de forma clara o que é uma conversa de amor e falsa valorização das palavras rebuscadas de um charlatão qualquer. Poupem os julgamentos. Ela é e sempre será a vítima desse crime monstruoso.

Outro jovem foi assassinado, cujo único pecado foi oferecer sua companhia e amizade à vítima escolhida pelos assassinos para ser morta. Outro menino, com uma vida inteira pela frente, levado pela insanidade nociva, disfarçada de amor e ciúmes. E o bebê. Dois meses. Indefeso. Pronto para viver uma vida que nem foi ele que pediu para ter. E que talvez tenha sido deixado a sofrer pelos assassinos, um destes, o seu próprio pai da criança. E a gente se pergunta, a cada notícia de uma barbárie assim: mas quem consegue, de são consciência, matar uma criança? Monstros, apenas monstros, mil vezes piores que os das histórias de ficção.

Por trás desta histórica macabra e asquerosa, uma trama tão suja quanto rocambolesca de mentiras, mau uso de uma função espiritual onde tantos depositavam confiança e fé, sedução indevida, taras incontroláveis, hipocrisia em sua forma mais repulsiva e velhos problemas que nossa educação pífia não consegue resolver. Como possessividade, redução do papel da mulher, desrespeito natural e sem qualquer pudor a um outro ser humano. Perdoem-me, mas não há como não sentir algo diferente que não uma revolta imensa pelo que aconteceu. Três vidas ceifadas. De três jovens. Três inocentes. Por motivos muito mais do que torpes.

Que dignidade feminina busca uma mulher que, ao se descobrir traída pelo seu parceiro, junta-se a ele para fazer o mal à outra mulher enganada? E digo “outra” porque ambas, no fim das contas, foram alvos de mentiras. Não que se precise que todas façam como o caso lá do interior, do tal “chá de revelação de traição”. Não creio que tudo precise ser midiático. Mas digno pode ser. O que passa pela cabeça dessas pessoas quando estão matando crianças – porque, no fundo, são três crianças – como se fosse nada? Queriam defender seu nome perante o grupo, para não comprometer a fama do líder religioso com um caso de traição conjugal? Ora. Temos a impressão de que esse conceito de assassino cruel, capaz de matar até um bebê indefeso, ficou muito pior, não é mesmo?

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