Oscar Bessi

Decapitados

decapitados_capa“Decapitados” é o título de um livro de Leonardo Brasiliense (Ed. Benvirá, 2014). Uma novela deliciosa e instigante. Que até não trata do mesmo drama que assola a região metropolitana de Porto Alegre, nos dias de hoje, mas quase: fala sobre o desamparo de um coletivo que, de repente, perdeu algum referencial e não sabe exatamente o que fazer. E talvez me venha, num primeiro momento, a lembrança de seu livro pelo título em si e sua coincidência com fatos assustadores. O caso macabro dos quatro jovens decapitados em Alvorada – ao total, só neste ano e na Grande Porto Alegre, já são onze decapitações – deixa a todos com um sentimento triste de desamparo. De não ter mais para onde ir, ou perder o ponto de partida para ter no que acreditar. Os debates sobre soluções vão ficando distantes, difusos, repetitivos e despidos de credibilidade ou esperança. O que está acontecendo, afinal? Por que essa repentina moda de ser cruel? Não há uma só resposta: há várias. E diversos problemas.


Conversei com alvoradenses sobre esses jovens torturados e assassinados com requintes generosos de sadismo, as mais novas vítimas desse ódio que se espalha, faz seguidores e se diverte sendo assim, ódio em estado puro. Potente. Insaciável. Trabalhei em Alvorada durante cinco anos. Tenho amigos ali. Alguma questão social e histórica colocou a cidade no topo da violência durante muito tempo. “Aqui, é uma enxadada e uma minhoca!”, brincou um policial veterano quando cheguei lá, no final dos anos 1990. Exagero. A população de gente do bem, de trabalhadores e estudantes que apenas querem um bom lugar para viver, sempre será bem maior do que qualquer núcleo criminoso. Mas já havia essa brisa desconfiada de medo. A triste fama. Além de um tanto de adesões às práticas tortas que não precisavam acontecer, pois não se justificavam. Mas, infelizmente, acontecem. Eis uma das raízes dos problemas. Uma.


Que seja um acerto de contas entre criminosos. Porém, justo aí temos um grave problema: o poder público é ironizado, pisoteado, a sociedade como um todo é diminuída, ridicularizada e acuada quando bandidos tentam mostrar que eles são a lei que funciona. Que eles dão as regras e os castigos. Neste momento, o descontrole chega às raias da irreversibilidade. Mais grave é saber que não é prática exclusiva de criminosos entre si. Fora vinganças ou guerra de facções, vemos casos semelhantes em assaltos. A tortura se repete como forma de amedrontar, roubar e matar dentro de novos padrões comportamentais de violência. Com orgulho de ver a dor da vítima, prazer com a morte e o horror do outro. Passou de hora se iniciar um tsunami urgente e gigantesco de humanização lá na origem. Na formação do indivíduo, da cidadania, no nascedouro das opções. Ou só resta conviver - e tentar sobreviver – em meio à barbárie.