Oscar Bessi

Deixar só é essencial, mas não é só isso

Os líderes seguirão isolados. A gente vibra. O Estado precisa mostrar força, ou acabará refém como aconteceu no banho de sangue de São Paulo, em 2006. Essencial que esses caras fiquem a sós. Mas quando a gente vê a ficha extensa de um dos líderes inseridos neste “castigo”, a fé dá uma freada.

Alguém irá me acusar de bipolaridade: minha fé passeia pelos labirintos da nossa resignada sobrevivência cotidiana de mãos dadas com o desconfiômetro. Não consigo me livrar dessa mania de acreditar desacreditando, ou vice-versa (mais raro). Ora, mas então somos os líderes mundiais da bipolaridade: todo brasileiro tem uma pá de fé e um pé atrás. Às vezes, os dois. Com os passos engessados pela incerteza sobre a próxima guinada do destino, individual ou coletivo, a lógica virou utopia faz tempo. Esta semana, por exemplo, as forças de segurança pública do RS conseguiram a transferência, para o módulo de segurança máxima em Charqueadas, de 11 líderes de facção envolvidos na execução de um rival na PECAN 3, em Canoas, em novembro do ano passado. Eles vêm da PECAN 3, da PASC, da PEJ e da PMC. Queremos, todos, ter fé. A ação policial, baseada numas das estratégias estabelecidas dentro da teoria da “dissuasão focada”, implantada no RS há dois anos – e dando bons resultados, pelo que se vê nos índices criminais – é perfeita. O que nos deixa com essa pulga, teimosa e inquieta, atrás da orelha é o restante do contexto.

O módulo de segurança é novo. A estrutura, as regras, a estratégia dão a impressão de que não haverá falhas no sistema. E a fala dura do delegado deixou claro: quem, dos transferidos, se envolver em homicídios, vai sofrer as medidas do protocolo. E isso inclui a possibilidade de ir para uma penitenciária federal. Os líderes seguirão isolados. A gente vibra. O Estado precisa mostrar força, ou acabará refém como aconteceu no banho de sangue de São Paulo, em 2006. Essencial que esses caras fiquem a sós. Mas quando a gente vê a ficha extensa de um dos líderes inseridos neste “castigo”, a fé dá uma freada. Os caras são, no máximo, homens de meia-idade, mas já carregam consigo um rol imenso de crimes escabrosos. Homicídios, tráfico de drogas, armas, etc. Já foram presos. Então por que estão soltos cometendo crimes? Liberando crimes? Por que esse isolamento não se aplica a todos esses criminosos cruéis o tempo todo? Sim, a população carcerária é imensa, mas talvez seja justamente por esse sentimento de que tudo dura pouco e, no fundo, não dá nada.

E enquanto o sistema reage e tenta endurecer com líderes criminosos, do outro lado da trincheira há quem defenda o negócio que enriquece os caras. As armas. As drogas. As apreensões recordes de maconha mostram que essa droga voltou com força ao mercado, depois de ser quase abandonada pela maioria dos traficantes há coisa de uma ou duas décadas. E as drogas sintéticas invadem as festas e desfilam em redes sociais sem qualquer pudor. Aí entra outra frente deveria ter, também, um protocolo adotado em todo o país: a Educação. Conhecimento. Valores humanos. Mostrar, encantar, levar os jovens a ler, a refletir, a sentir e pensar. Essa onda de mentes rasas, robotizadas nas falas e convicções, a viver de ostentação, superficialidade, máscaras e frivolidades, é o maior mercado consumidor que abastece toda essa rede de violências intermináveis. Terra adubada para inços e nadas. E a pulga aqui, atrás da minha orelha, sussurrando preocupações com este cenário e não deixando o meu pé ir pra frente com convicção.