Não é fácil conviver com a dor. Da mesma forma em que compartilho o pensamento de que, pelo menos, temos que aprender a lidar com ela. Há nove dias perdi meu pai. Era uma questão tão lógica que chegava a ser matemática: sua idade avançada, seus problemas de saúde, sua fragilidade. Eu, que me acostumei durante a infância e adolescência a ver aquele sujeito forte, de ideias firmes e irredutíveis, fã de Leonel Brizola e crítico feroz da ditadura, mesmo que tenha vestido uma farda durante os 20 anos de exceção, demorei a entender sua fragilidade. Do guri que saiu da roça para virar soldado no pós-guerra, para botar ordem num recanto de pampa que ainda maltratava seus imigrantes alemães por pura ignorância, o guri que chegou a coronel. Que me deu limites que muitas vezes detestei e não entendi. Que me deu o pão seguro na mesa de cada dia, mas me disse de que jeito temos que cavocá-lo, pois ele não cairia do céu jamais.
Nos últimos cinco anos, vivemos em torno disto. Do seu definhar paulatino e irreversível. Culminou com o que era previsto e agradeço a Deus a chance de ter compartilhado seus últimos instantes. Seus últimos passos, olhares e sorrisos. Não era uma rotina fácil, correr do quartel para o hospital, escrever, dar palestras, cuidar da família, incluindo minha casa, meus filhos e minha mãe. E estar lá, para pegar meu pai no colo quando ele queria descer da cama e não conseguia. Para levá-lo ao banheiro. Para ler o Correio do Povo ao lado do seu leito, ele que a vida toda teve o CP ao seu lado, bem cedinho, sem perder uma linha. Enfim. Ao seu lado, no velório, eu lembrava nossas caminhadas pela Feira do Livro quando eu era menino, e como eu queria que ele estivesse bem para ler "O Silêncio mais Profundo". Meu pai era um grande leitor. E um leitor crítico. Gostava das minhas colunas, talvez até por ser pai (pai e mãe elogiando a gente nem conta). Mas eu queria que ele tivesse lido meu livro. Não deu tempo. Eu demorei demais. Depois da dor, vem este silêncio. Profundo. Como os silêncios que circundaram meu personagem. Agora, seco as lágrimas e sigo em frente. Retomo o blog com força. Eu sei que lá, onde ele está, ele vai conseguir ler.
