Oscar Bessi

Desprezo lá, carinho aqui com Sofia

Coluna publicada na edição impressa do Correio do Povo desde domingo, 29/11/2015

Leia a emocionante matéria de Jézica Bruno, completa ("A história de Sofia - quatro brigadianos mudaram seu destino) na página 13 do CP de hoje.

 

O resgate de Sofia

 

Trágico. Violento. Traumatizante. Dure o tempo que for, tenha o objetivo que tiver, um sequestro será sempre permeado de horrores. Só as vítimas sabem o que sentem. É estar sob as armas de desconhecidos que, de repente, têm consigo o poder de determinar um novo e inesperado destino. O imprevisível, vulnerável depois. A tortura nas dobras do tempo, congelado em medo. Corpo e alma escravizados ante a violência que grita por dinheiro, ou carro, o que for. Dilacerante. Ainda mais se a vítima é uma criança: só de pensar, nós, que gostaríamos de ter a capacidade de proteger nossos pequenos deste mundo tão humano e violento, nos abalamos. Só de pensar. Imagine viver.


Seria mais um dia feliz, neste mês, para Sofia e sua família. Mais um dia comum para os soldados Paulo Barres, Jonatas D’Ávila, Huewerton Oliveira e Alexsandro Fetzer, do Pelotão de Operações Especiais do 21º BPM. De repente, o destino os uniu. Os soldados ouviram pelo rádio sobre roubo de carro com sequestro em andamento e ficaram em alerta. Haveria uma mulher como refém dos bandidos. Acostumados ao combate diário da violência urbana, não demorou muito para que localizassem o veículo suspeito. Numa ação perfeita, prenderam toda a quadrilha. Sem ferir ninguém. Para surpresa dos policiais, uma menina de seis anos chorava no assoalho do carro, em desespero, pedindo que não a matassem. Por que horrores esta criança passou, subjugada aos pés destes ladrões, para estar assim!


Embora o trauma, tudo acabou bem. E Sossô (como seu pai a chama) visitou os seus heróis na sede do 21º BPM, o batalhão da Brigada Militar ali na Restinga, em Porto Alegre. Brincou, andou de viatura, ficou agarrada nos responsáveis por estar viva. Os seus heróis. Foram momentos de amor e alegria para esquecer o medo. O pai, empresário de sucesso, não poupou agradecimentos aos PMs nas redes sociais. Uma realização para os soldados - ainda que eles, como tantos colegas das diversas forças policiais país afora, salvem uma infinidade de vidas em seus cotidianos por aí. Sempre é bom ouvir um "muito obrigado". De quem se dá a vida, ou a quem se devolve o direito de viver. Triste que estes mesmos heróis precisem ouvir, da própria gerência pública, desrespeitos e frases tristes como "vocês têm é que dar graças a Deus por ter estabilidade". É. Bom lembrar que quem depreda a coisa pública não são os funcionários concursados. Nem empresários honestos e trabalhadores, sufocados sob tributos, mas expostos aos bandidos de toda ordem. Estes cidadãos sabem em quem confiar e com quem contar. E é com estes guerreiros do serviço público, o que realmente funciona para o povo, mesmo com sucateamento e descaso. Os que sabem trabalhar. No mais, é fato: só bandidos apreciam um estado incompetente.