Oscar Bessi

Diga-me com quem andas

É a tal côsa. Arena lotada, aquele mar azul de gente que mais parece convenção mundial dos Smurfs, ou uma gigantesca ilusão de ótica - que o azul, disseram-me, é a clássica ilusão de ótica da ausência, por isso o céu parece azul onde há um buraco sem fim, a água fica azul onde não há cor e o Grêmio... Ah, deixa pra lá. O jogo, claro, é do Grêmio. Contra um time qualquer de longe, muito longe. O estádio lota com apenas uma torcida. Então, naquele oceano de gremistas fanáticos e eufóricos, loucos para matar a saudade de títulos - ou das evoluções coreográficas em cinquenta tons de avalanche - alguém, todo vestido de azul, rosto pintado e bandeira tricolor amarrada no pescoço, para de repente de cantar e pular ao se ver flagrado pela câmera e grita:

- Não! É engano! Sou colorado!

Bah. Alguém acreditaria? Digo isto para a meninada, quando vou conversar com eles nas escolas. Aos garotos e garotas que andam em más companhias, depredando na madrugada, brigando, achando bacana se enturmar com quem convive entre drogas e outras porcarias e faz, disto, uma agressão a si e ao outro. Difícil aceitar que toda cumplicidade seja apenas passiva. Até porque a passividade, ou omissão, é o primeiro gesto de co-autoria dessas violências todas. Aceitar, achar normal, também é agredir. É participar.

Mas talvez a tal presunção de inocência seja mais presunçosa do que possa parecer. E faça com que as pessoas acreditem, piamente, que podem nos enganar. Foi o que aconteceu com o Doutor Davi Valdino. Filiado ao PEDIR (Partido de Extrema Direita, um que pede a volta da ditadura e do analfabetismo banguela, entre outros pleitos), ele apareceu na última eleição agarrado num político famoso. Famosão. De belo sorriso e bom penteado. O problema se deu quando o nome do fulano surgiu numas dessas relações com corruptos de altos naipes.  É claro que ele foi cobrado pelos amigos. E pela imprensa. Muito vivo, Davi Valdino - é doutor, doutor! - fitava seus interlocutores, fazia beicinho, uma careta de choro e se lamuriava feito a esposa que descobre a infidelidade do marido, mas só vinte anos depois e no velório dele. Então falava aquela série de chavões sobre não ter como imaginar que isto acontecia, que logo o fulano seria capaz disto, que ainda acredita que talvez seja tudo um lamentável engano, que lutará pelo recomeço e blábláblá.

Até que alguém perguntou ao Doutor Davi Valdino se, afinal, ele era um gremista vermelho de vergonha, ou um colorado azul de mal-estar. Ele sorriu e disse que o país estava acima de qualquer time. E fez aquele olhar de quem, de fato, ama a camisa amarela. Ainda mais se for amarelo-ouro.