Oscar Bessi

Diversão não pode ser roleta-russa

Responsabilidade e cuidado com a vida precisam estar acima de qualquer faturamento, propaganda ou promessa de experiência inesquecível. Quem explora o lazer alheio tem o dever moral e legal de proteger. E quem frequenta esses espaços também precisa desconfiar, observar, cobrar, recuar quando algo parece errado. Nenhuma possível foto bonita, ingresso barato ou atração “imperdível” vale mais do que voltar para casa vivo.

A notícia veiculada aqui no Correio do Povo, de que a Polícia Civil concluiu e encaminhou ao Ministério Público gaúcho o inquérito que apurou as mortes de dois turistas, após um carrinho elétrico cair em um lago, na Serra gaúcha, precisa nos servir de lição e alerta. Com base nas provas reunidas, o proprietário da empresa responsável pela locação do veículo foi indiciado por homicídio culposo.

Há lugares que prometem descanso, encanto, diversão. Parques, festas, atrações turísticas, espaços pensados para suspender por algumas horas o peso da rotina. Mas, por trás da paisagem bonita e das fotos sorridentes, existe uma responsabilidade que não pode ser terceirizada nem relativizada.

A conclusão deste inquérito policial escancara uma verdade incômoda: lazer também é coisa séria, e descuido mata.

Basta observar com mais atenção para perceber que o problema não é pontual. Parques de diversões com brinquedos enferrujados, improvisados, que não inspiram a mínima confiança, são comuns. Como se fossem atrações cuja manutenção ficou no passado. Quem nunca viu um assim, até mesmo na praia, ou na sua cidade? Fora equipamentos operados por pessoas sem treinamento adequado.

Soma-se a isso a exploração turística de áreas naturais, como cânions e mirantes, sem qualquer tipo de proteção adequada, orientação ou controle. Em alguns a desculpa é por não se cobrar ingresso, mas noutros se cobra um preço. Aliás , o preço é sempre alto demais quando algo dá errado, pois alguém pode perder a vida.

É impossível falar de responsabilidade e não lembrar da boate Kiss. Jovens que saíram de casa para dançar, cantar, celebrar a juventude. Nenhum deles imaginava que aquela noite terminaria como uma das maiores tragédias da nossa história. E não foi o acaso, nem foi o destino: foi a soma de pequenos gestos irresponsáveis, de decisões tomadas com foco no lucro, na economia, na pressa, jamais na segurança. O resultado foi irreversível e deixou uma ferida que o tempo não fecha.

Responsabilidade e cuidado com a vida precisam estar acima de qualquer faturamento, propaganda ou promessa de experiência inesquecível. Quem explora o lazer alheio tem o dever moral e legal de proteger. E quem frequenta esses espaços também precisa desconfiar, observar, cobrar, recuar quando algo parece errado. Diversão não pode ser um ato de fé cega. Porque nenhuma foto bonita, nenhum ingresso barato, nenhuma atração “imperdível” vale mais do que voltar para

casa vivo.