Foto: Eu e Donira abraçados, ao lado da Equipe da Biblioteca Pública Coronel João Maia, em Triunfo, inaugurando a Casa de Ideias na Praça Bento Gonçalves durante a Feira do Livro de 2015, quando fui patrono.Confesso que engatilhei uns cinco ou seis assuntos para hoje. E desisti de todos. Do laboratório de drogas sintéticas na capital, da violência contra jornalistas, dos bairros sitiados, das tantas e duras tristezas deste nosso cotidiano. Não sei falar de tristezas se estou triste, defeito meu. No meio da semana eu recém divulgara uma entrevista ao professor, escritor, Mestre e Doutor em Literatura pela UFRGS, Marcelo Spalding, no Portal Artistas Gaúchos, que reúne figuras brilhantes da nossa cultura. Eu estava feliz pelo fato de ter destacado minha insistência na literatura como um poderoso instrumento de humanização. É sabido, os livros mudam as pessoas. E estas pessoas podem mudar o mundo.
Aí, através de outro amigo escritor, Mateus Araújo, fico sabendo que este incandescente janeiro nos levou a Donira. A mais antiga das Tias da Biblioteca Coronel João Maia se foi. Menino do interior, eu era um apaixonado pelas tias da biblioteca, fosse a pública ou a da escola. O apreço pelos livros nos unia. Em novembro do ano passado, aproveitei meus dias de férias e me entreguei de corpo e alma à Feira do Livro da histórica cidade de Triunfo. Eu era o Patrono, como já havia sido em Mato Leitão e Santa Clara do Sul, precisava fazer por merecer. Lá, na pequena casa construída em 1858, aproveitando a declividade do terreno a Rua Demétrio Ribeiro, conheci Donira. E Adélia, Josi, Natália, Ivone, Leonardo e Magali. Um time de apaixonados pela literatura que faz milagres para multiplicar a cidadania.
Na abertura da Feira, esta equipe era lágrimas e emoção ao homenagear Donira, décadas de dedicação ao próximo, ao futuro, ao sonho. Que bom que conseguiram fazer isto em vida. Na foto com a organização da Feira, estamos abraçados. Ela estava empolgada, sorria e me dizia estar feliz de ver o evento valorizado, mesmo após tantas dificuldades. Leu meu livro em poucos dias e disse ter adorado. Que honra: seu parecer vinha do alto de suas tantas décadas de dedicação à cultura e à educação de sua gente. Sentirei saudade, guria. Tenho absoluta certeza de que, num mundo invadido pelas vontades e paixões de um exército de Doniras, armados até a alma de livros e sensibilidade, não vingariam laboratórios de drogas e anabolizantes. Não se precisaria sitiar comunidades sob ameaças. Nem a verdade geraria tamanho ódio contra quem as revela.
