Dores que sangram além de Caxias
As duas notícias terríveis que abalaram a crônica policial gaúcha, esta semana, vieram de Caxias do Sul. O policial militar que, ao perseguir uma moto - cuja verificação da placa, segundo informações repassadas à coluna, apontava para veículo em situação de roubo -, foi fechado subitamente numa curva pelo criminoso que fugia, colidiu contra um poste e não resistiu. E a professora que, ao iniciar mais um dia em sua paixão de vida – lecionar -, foi brutalmente esfaqueada por adolescentes que, tudo indica, estavam revoltados com uma providência disciplinar adotada pelo mau comportamento de um deles e queriam vingança. Os dois casos refletem muito do conflito moral que vivemos e deixa as gerações atuais sem muitas referências positivas para tocarem suas vidas.
Assim como o sargento covardemente atropelado em Soledade, o soldado Nazário também estava no cumprimento do seu dever. Com a mesma fé de fazer o que é certo, de proteger vidas e patrimônios de quem quer que seja, até mesmo dos que não gostam das suas presenças. Ambos foram até a última consequência do juramento feito, sacrificaram a própria vida na defesa de uma sociedade que, quase sempre, não demonstra qualquer mínima gratidão por tudo o que é feito por ela. Ambos eram jovens pais de família. Idealistas. Semeadores de ética, moral e valores positivos. Talvez, até creio, conscientes de que fariam uma prisão suada que, como tantas outras, viraria pó numa audiência de custódia minutos depois, liberando o criminoso (para cometer novos crimes, lógico) antes mesmo que eles terminassem a papelada exigida. Mesmo assim, não desistiram. Não vergaram. Cumpriram o seu dever, fizeram a sua parte. Heróis. Não menos que isto.
A professora esfaqueada que foi esfaqueada à traição é outra jovem idealista. Apaixonada por dar aulas, pela multiplicação do saber e pela transformação do indivíduo através do conhecimento. Neste mundo onde tão poucos jovens parecem dispostos a serem professores, ou até mesmo a encararem alguma profissão que lhes exija um pouco de cérebro. Um exemplo inspirador, é o que apenas ela deveria ser. Mas não lhe deram tempo nem de entender o motivo por ter sido quase assassinada no exercício da sua profissão. Que ela seja forte e não desista, mesmo depois de tudo o que passou, de seguir semeando futuros melhores em seu caminho.
A dor que sentimos em cada um destes tristes acontecimentos, transcende a cidade de Caxias do Sul, onde coincidentemente aconteceram as duas tragédias. Estes jovens, que sempre acreditaram em um bem maior, na humanidade possível e em estender a mão ao próximo, agindo, protegendo, ensinando e mostrando caminhos (não apenas discursando bravatas fanáticas em redes sociais), não mereciam que o caos os atingisse assim. Não assim. Ainda que todos nós sejamos atingidos por ele, volta e meia, neste mundo desorganizado e desequilibrado que plantamos e colhemos. E não adianta botar culpa só em jogos ou no mundo virtual, ou na impunidade que nos cerca há décadas (ou séculos). Há mais culpas, bem mais pesadas e decisivas, que unem as duas tragédias numa intersecção de ausência de respeito ao outro e empatia, entre descasos, ganâncias e equívocos. Um debate longo e profundo. Mas uma reflexão urgente e essencial para todos nós.
