
O bolo azeda. Não é mais festa há muito tempo.
Acuados, os marujos dão gargalhadas.
Nervosos? Não. Só um mau costume. Não sabem tomar o comando do navio, não sabem ir adiante sem que alguém os conduza, não estão acostumados a pensar, a calcular, a observar todos os lados, a simplesmente escolher. Viveram sob cabresto o tempo todo, do cabresto que humilha ao que faz cafuné, não conseguiriam mandar no seu olhar logo agora. Só sabem aceitar.
Então fazem piadas de seu infortúnio.
Podem ser tragados por um vagalhão. Podem simplesmente naufragar. Podem restar inconscientes, machucados pelo resto da vida, sequelados, inúteis, inválidos de alma e possibilidades. Podem nem restar.
Porém, esperam.
O brasileiro é um povo tão alegre quanto sofrido. Dos traços tortos da história, versões mal feitas de vitórias ilegítimas. Distorções. Mas quase nenhum questionamento e tantas brincadeiras. Entre risos, boiadas saem as ruas mais empurrados por outros do que pela dor de si, empunham bandeiras de capatazes inescrupulosos que se revezam no conduzir da boiada, que falam sobre o diferente e fazem exatamente o mesmo. O destino? Sempre o matadouro, não pode ser que não saibam! Sempre que as roupas e as vozes mudaram, o comando nunca mudou o rumo, só enfeitou a estrada de um jeito diferente. É engraçado, isto?
Memes. Memes.
Que te resta, cidadania, se não brincar com teu calvário?
Manter o brilho no olho a qualquer custo: quem sabe uma estratégia de sobrevivência. E talvez, um dia, alguém até possa rir disso tudo. Mas não sei se serão nossos filhos.
Com sorte, muita sorte, os netos.
