Meu pai costumava dizer que a lã não pesa à ovelha.Início dos anos 80. Eu era guri, preparava mochila e bicicleta para ir à escola, minhas preocupações eram com o topete, lembrar se eu estava a par das últimas do rock para ter assunto e impressionar os amigos e as menininhas, essas coisas. Eu não queria saber se estava previsto chuva para aquele dia. Se não estivesse chovendo na hora de sair, não era uma preocupação.
Vida de guri é deliciosamente imediata. O imediatismo adulto que é sem graça.
Eu lembrei da cena ao acordar cedo, hoje, e acessar o portal do Correio do Povo. Faço isto toda manhã antes de chegar meu jornal, é costume. Acordo cedo demais. Sou interiorano, ou voltei a ser depois de anos na capital, então as galinhas me despertam. Antes elas do que as sirenes do desespero e as buzinas da impaciência.
Previsão de chuva, li.
Fui postar um poeminha de saudação aos amigos e uma rede social me avisou: não se molhe, hoje vai chover em Montenegro.
Ah, tá. O pai se foi e reencarnou numa plataforma virtual. Só faltou dizer que a lã não pesa à ovelha.
Eu tive saudade da minha indignação lá daqueles anos. Eu não queria levar guarda-chuva, isto era coisa de velho, as meninas, os amigos todos iriam zombar. Eu zombava. Por que, então, municiaria o bullying alheio levando aquele trambolho comigo?
Tinha que levar. O guarda-chuva estilo bengala de vovô. E um boné na cabeça, porque tinha que proteger a cabeça, o peito, as costas, os pés, etc., etc., etc.
(Tá, pai, falhei, nessa idade, pois é, pensei que era lobo e tomei chuva, frio e calor, tudo no mesmo dia, aí o peito estourou, a bactéria renasceu, o pulmão pediu arrego, eu devia ter pensado na ovelha e não no lobo, baita exemplo né?, tá, tu tinhas razão, ok., ok., na próxima eu...)
Hoje repito a recomendação aos meus filhos. E uso a mesma explicação contra o protesto deles: a lã não pesa à ovelha.
- E se a chuva não vem? - pergunta o guri dos dias de hoje, que me imita nalguns traços, visíveis ou não.
Ah, daí não sei.
Muitas vezes esperei a chuva e ela não veio. Muitas vezes esperei muita coisa na vida, e elas simplesmente não vieram. Faz parte dessa incógnita chamada viver: correr o risco. Apostar no sim ou no não. Só é impossível ficar sobre o muro, ele não leva a lugar algum.
- Se a chuva não vier, melhor. - décadas depois, a simples experiência não me faz ter uma resposta mais criativa. Só a lei da ovelha.
As ovelhas se protegem o tempo todo com sua lã. Elas não se preocupam se o perigo vem ou não. Estão protegidas.
E as ovelhas são animais tão sensíveis! Mas sobrevivem aos lugares mais inóspitos, atravessam o espaço e os tempos, resistem a um número grande de feras predadoras - até à ganância humana, a pior praga planetária, com quem convivem desde a Idade do Bronze. Elas simbolizam o que há de bom. E seus produtos derivados são valiosos, porque são fortes.
Por que são fortes?
Elas não querem nem saber se a chuva vem.
