Oscar Bessi

Educação à moda antiga

Coluna dominical, edição impressa, em 15 de maio de 2016.

 

O ideal era não precisarmos de fiscalização. Muito menos de multas. Bastaria um mínimo de consciência e tudo o que há de ruim, e muito ruim, no trânsito brasileiro seria evitado. Matamos uma cidade de porte médio por ano nas estradas e ruas do país. Só no abuso, desrespeito, excessos e irresponsabilidades. E, convenhamos, não apenas de nossos condutores: neste balaio fúnebre estão também os construtores de estradas. Quem permite, faz ou planeja vias sem acostamento, asfaltos de farinha que, pouco tempo depois de colocados, se desmancham a qualquer chuvisco. Ou pelo trânsito de caminhões. Já que o tempo passa e nós não conseguimos pensar (nós, sim, pois recolocamos os de sempre nos mesmos lugares a nos gerenciar, mesmo sabendo de cor como agem e quando se omitem) em outras formas de transporte de pessoas ou cargas, a dor é rotineira. Uma lástima.

Apenas multar não é educar, me desculpem. É nada além de ameaçar com efeito real zero. Uma prova? Novas multas surgem e os crimes e as tragédias se repetem. Outra prova? Quem já não ouviu alguém muito próximo (vamos fingir que nós nunca falamos tal barbaridade) dizer que, bah, não vai beber hoje porque “os homens” podem estar atacando ali adiante, aí dá problema. Ei, cara pálida! O senhor não vai beber porque respeita a vida! Porque, alcoolizado, colocará a si próprio e aos inocentes do seu caminho em risco. Compreende? Não. Eis um pensamento não vinga. É tipo aquela educação à moda antiga, onde o castigo físico era mais importante do que a compreensão do erro. Então o filho, que apanhava por fazer tal traquinagem, comportava-se na frente dos pais, mas pelas costas era outro. Assim são nossos condutores. Querem ser avisados sobre os locais de fiscalização? Por quê? Ora, para descumprir o limite de velocidade onde a polícia não está. Moleques marotos. Mas não é uma brincadeira que está em questão. São vidas, pô!

Há momentos em que me parece, francamente, que nossos órgãos de fiscalização de trânsito jogam contra algum interesse do próprio estado. A educação para o trânsito já deveria estar bem mais forte na formação dos nossos filhos, mas se resume à iniciativa de valorosos agentes que criam escolinhas, atingindo apenas uma pequena parcela da população e de forma espalhada. A educação age de forma inversamente proporcional ao apelo consumista que empurra legiões às ruas e estradas. Parece até que é interessante não educar, mas fomentar o erro, aí multar e arrecadar. Bom. Enquanto não há educação de verdade, infelizmente os fiscalizadores não tem outro jeito de inibir o caos. Só a chinelada. E no bolso, que é onde dói mais.